Resenha: Os Garotos Corvos, de Maggie Stievfater (A Saga dos Corvos #1)

Os Garotos Corvos

Essa resenha está dividida em duas partes: a primeira é uma resenha sem spoilers, para pessoas que não leram o livro. A segunda parte discute cenas específicas de Garotos Corvos, logo contém spoilers. Entre essas duas partes haverá um aviso, para que quem não leu o livro possa evitar a segunda parte.

(EDIT: Uma resenha em vídeo de toda a série A Saga dos Corvos, sem spoilers, está aqui.)

Ironicamente, o post sobre o que mais queria escrever está sendo o mais difícil de ser feito. Enrolei, enrolei, abri a janela de post novo, olhei para a tela branca, enrolei, enrolei, enrolei. Não faço a mínima ideia de como começar essa resenha, muito menos como estruturá-la. Quando penso “ah, posso falar sobre ponto x!” imediatamente vêm pontos w, y e z demandando atenção. Como escolher por que faceta do livro começar, quando amei todos? O fato é que faz tempo que não me apaixono por um mundo como me apaixonei pelo mundo de A Saga dos Corvos. Maggie Stievfater me fez querer ter nascido em uma família de mulheres psíquicas, procurar por reis mortos, explorar uma floresta mágica… e muitas outras coisas que não podem ser ditas por conta de spoilers!

Mas enfim, acho que o melhor jeito de começar essa resenha é… pelo começo. Os Garotos Corvos, primeiro livro da série A Saga dos Corvos (quatro livros, três já lançados), foi escrito por Maggie Stiefvater e lançado nos Estados Unidos em 2012. O livro conta a história de Blue, uma menina normal em uma família de clarividentes da cidadezinha de Henrietta, e sua amizade com um grupo de garotos da escola para meninos ricos Aglionby. Juntos, eles procuram por Glendower, um rei escocês morto há muito tempo e dito ter sido enterrado na pequena cidade onde moram. A sinopse oficial do primeiro livro:

Todo ano, na véspera do Dia de São Marcos, Blue Sargent vai com sua mãe clarividente até uma igreja abandonada para ver os espíritos daqueles que vão morrer em breve. Blue nunca consegue vê-los — até este ano, quando um garoto emerge da escuridão e fala diretamente com ela. Seu nome é Gansey, e ela logo descobre que ele é um estudante rico da Academia Aglionby, a escola particular da cidade. Mas Blue se impôs uma regra: ficar longe dos garotos da Aglionby. Conhecidos como garotos corvos, eles só podem significar encrenca. Gansey tem tudo — dinheiro, boa aparência, amigos leais —, mas deseja muito mais. Ele está em uma missão com outros três garotos corvos: Adam, o aluno pobre que se ressente de toda a riqueza ao seu redor; Ronan, a alma perturbada que varia da raiva ao desespero; e Noah, o observador taciturno, que percebe muitas coisas, mas fala pouco. Desde que se entende por gente, as médiuns da família dizem a Blue que, se ela beijar seu verdadeiro amor, ele morrerá. Mas ela não acredita no amor, por isso nunca pensou que isso seria um problema. Agora, conforme sua vida se torna cada vez mais ligada ao estranho mundo dos garotos corvos, ela não tem mais tanta certeza.

Confesso que não fiquei muito convencida por essa sinopse – não sou muito chegada a livros com muito romance, e esse sumário foca bastante na relação entre Blue e Gansey – e o único livro que conhecia da autora (A Corrida de Escorpião) foi abandonado no meio da leitura. Mas vi cada uma das pessoas que sigo nas redes sociais pouco a pouco se apaixonarem por essa série, até que minha irmã me convenceu a dar uma chance aos Garotos Corvos (“Leia pelo Ronan e Adam, juro que vai valer a pena!” sábias palavras). Baixei os livros, porque evito comprar livros que não sei se vou gostar…. e agora, dois meses depois, estou correndo de livraria em livraria procurando pelos exemplares físicos. Estou completamente apaixonada.

Arbores loqui latine,” Ronan respondeu. “As árvores falam latim.”

O primeiro ponto que considero imensamente positivo é que não só o romance não é forçado, como também a relutância de Blue em começar a gostar – mesmo como amiga – de Gansey é desenvolvida de forma realista para o leitor. Não é a primeira vez que uma autora de YA começa seu livro com a garota e seu interesse romântico “se odiando”, mas muitas vezes esse “ódio” acaba parecendo forçado para o leitor, que sabe que os dois irão acabar se apaixonando. Stiefvater, porém, consegue conduzir essa relação com naturalidade. Blue não só não gosta de Gansey, como na verdade se interessa por outro garoto do grupo, e em nenhum momento isso se torna um triângulo amoroso (aleluia!!). Essa relação é desenvolvida à parte da relação de Blue e Gansey, e tudo ocorre organicamente. De fato, Garotos Corvos termina sem que Blue tenha se apaixonado por Gansey – o que na verdade faz com que os leitores se invistam mais no casal, pois se apaixonam junto com os personagens, e torcem por eles; há espaço para o crescimento natural de relações, não apenas personagens forçados juntos pela narrativa.

Um parágrafo gigante comentando sobre o romance principal (ou falta dele) porque o sumário oficial foca principalmente nesse aspecto do livro, mas agora sim chegamos na minha parte preferida: o romance não é nem de perto o foco de Os Garotos Corvos! O livro, na verdade, não é sobre Blue e Gansey, mas sim sobre Blue e todos os quatro garotos. A amizade que liga esses personagens é maior que sua missão, maior que qualquer romance, tão mágica quanto os eventos sobrenaturais de Henrietta.

“Mais fácil e mais difícil,” Persephone disse. “Tem muita energia, então é como ter você no quarto durante todo o tempo. Mas é como seus garotos. É um tanto alto.”
Meus garotos!, Blue pensou, primeiro irritada, depois lisonjeada, depois irritada novamente.

Por ser o primeiro livro da saga, esse é apenas o começo da amizade entre Blue e os meninos, que crescerá e se tornará onipresente nos próximos livros. Porém, o vínculo entre os quatro garotos corvos – Gansey, Ronan, Adam, e Noah – é impossível de ser ignorado desde sua primeira cena. O amor que os garotos sentem um pelo outro é quase sufocante em sua força na narrativa; mas isso não significa que não haja nenhum conflito entre eles. Ao contrário, o fato de se amarem tanto apenas torna certas relações mais difíceis, como a amizade entre Gansey e Adam. Stiefvater lida com as problemáticas de diversos tipos de amor – romântico, platônico, familiar – com maestria, alternando entre sutileza e brutalidade com uma facilidade invejável.

O estilo de escrita de Stiefvater, porém, se sobressai na construção de atmosfera do livro. A Saga dos Corvos trata do sobrenatural; mas não um sobrenatural qualquer, e sim da mágica típica de cidades pequenas. Durante a busca por Glendower, Blue e os garotos encontram fantasmas, florestas mágicas, espíritos antigos, e assombrações. Stiefvater introduz todos esses elementos sobrenaturais de uma forma tanto fantástica quando assombrosa, para que tanto os personagens quanto o leitor se maravilhem com a mágica desse mundo, mas não se esqueçam do perigo iminente.

À noite, Henrietta parecia mágica. E à noite, magia parecia que poderia ser algo terrível.

A Saga dos Corvos é uma série que definitivamente tem seu próprio estilo de escrita e atmosfera, algo nem sempre encontrado em livros YA. Os livros conseguem atingir um equilíbrio entre a tensão e seriedade dos momentos fantásticos e as brincadeiras e comportamentos típicos de um grupo de adolescentes livres da supervisão de adultos. Stiefvater nunca comete o erro de se levar a sério demais, mas ao mesmo tempo trata de assuntos pesados de maneira respeitosa.

O único ponto fraco desse primeiro livro, ao meu ver, é o vilão. Comparado à complexidade dos outros personagens, Whelk é um personagem bidimensional, quase uma caricatura de vilão, e que não desperta nenhum interesse do leitor. Felizmente, isso é algo corrigido nos próximos livros da série.

Os Garotos Corvos pode ser um livro difícil de gostar a primeiro momento; as primeiras cinquenta páginas podem deixar o leitor confuso, principalmente se não tiver nenhum conhecimento sobre clarividentes e linhas ley. Porém, o livro acha seu ritmo quando Blue e os garotos se encontram, e se torna uma rápida e divertida corrida até o final. Mas o melhor de Os Garotos Corvos é ser, por tão bom que seja, o livro mais fraco da série até agora. Não há necessidade de se preocupar em amar o primeiro livro mas se decepcionar com a continuação nesse caso. Os Garotos Corvos é a introdução ao mundo de A Saga dos Corvos; e agora que foram introduzidos, sua história pode realmente começar.

A PARTIR DESSE PONTO O POST CONTÉM SPOILERS E DISCUSSÕES SOBRE PARTES ESPECÍFICAS DO LIVRO

Resolvi fazer uma resenha para cada livro da série justamente porque cada livro tem certos pontos que simplesmente preciso comentar sobre. Na verdade a maioria dos meus momentos favoritos da série estão nos próximos livros, mas reler certos momentos de Garotos Corvos já sabendo o que está por vir é muito divertido. Por exemplo: alguém mais percebeu que, mesmo já no primeiro livro, tanto o Gansey quanto o Ronan já estão com ciúmes de Blue/Adam?

Acho que mais pessoas devem ter notado as partes sobre o Gansey, já que se trata do interesse romântico óbvio. Mas é a reação do Gansey que justamente é a mais sutil: em sua narrativa, ele não consegue não tomar nota sobre como Adam e Blue estão de mãos dadas, ou parados perto um do outro, mas Gansey logo muda de assunto para não pensar muito no que está sentindo. Em nenhum momento ele vê Adam como um “rival”, o que eu amo, porque odeio triângulos amorosos. Agora, o Ronan…

Já pararam para pensar por que o Ronan não tem capítulos nesse primeiro livro? É porque se ele tivesse, ia passar o capítulo inteiro falando mal da Blue. “Ela nem é tão bonita assim, não sei o que Adam vê nela, os dois são ridículos, ODEIO AFF”. O Ronan é todos nós xingando no twitter porque a crush tá com outra pessoa, gente. Ronan é a personificação do meme “vendo você beijar outros bocas”. Sei que nem todo mundo pode ter pegado as reações dele, porque o leitor de primeira viagem vai estar esperando por Gansey/Blue, não Ronan/Adam. Mas leiam as passagens dele com atenção: quando estão na pizzaria, ele só fica bravo depois que Adam vê a Blue. Ronan se oferece a ensinar Adam a dirigir, mas quando a Blue chega, ele bate a porta do carro furioso. Ronan passa o primeiro livro fazendo uma birra gigantesca, e a melhor parte é que nem ele mesmo sabe porque! O que, é claro, nos leva a Ladrões de Sonhos, onde ele finalmente é obrigado a confrontar a si mesmo e admitir porque exatamente o motivo dessa “birra”.

Enquanto isso, toda vez que Blue e/ou Adam falam sobre o quanto “odeiam” Gansey e/ou Ronan, pareço uma bruxa maluca dando risada sozinha. Vocês mal sabem que daqui a dois livros vão amar esses rostos que tanto “odeiam”. 🙂

Acho que não há razão em falar muito sobre o conflito entre Gansey e Adam agora porque o ponto alto da briga está justamente no próximo livro, mas sempre fiquei na dúvida: há alguém que ache que Gansey está certo em brigar com o Adam por se oferecer para Cabeswater? Porque do meu ponto de vista, ele fez a coisa certa. Se ele não tivesse agido, Whelk estaria no controle das linhas ley. Mas essa briga só ocorre no próximo livro, então não nos adiantemos.

Ainda sobre o Adam, novamente as partes mais importantes de seu arco emocional ocorrem nos próximos livros; mas o quão tensa foi a última cena com seu pai! Ronan falando que ele não precisa entrar, Adam indo mesmo assim, e Ronan se recusando a ir embora até que tivesse certeza que Adam estava seguro…. e interferindo no momento que percebe o que está acontecendo. Reparem que Adam, que não queria denunciar seu pai por seu próprio bem, o denuncia para que Ronan não seja preso – e Ronan, que até agora não se importava em ser expulso da escola, passa a próxima semana estudando para passar de ano. Esses dois… minha irmã estava certa, ler por eles já fez o livro valer a pena.

Sendo sincera, Ronan é meu personagem favorito, mas toda a jornada por que Adam passa é inigualável. Todos os temas sobre pobreza e abuso, e como Adam é obrigado a lidar com as consequências de sua criação – e como entra em choque com Gansey, que nunca teve que passar por nenhuma dificuldade… Stiefvater trata tudo isso com o respeito que merece, e a narrativa nunca mostra Adam como o errado nas discussões dos dois. É claro, eu sei que o mesmo não ocorre entre os fãs – já vi muita gente falar que o Adam é um demônio ingrato e que Gansey está 100% certo – mas os livros em si nunca priorizam um sobre o outro.

Por último, uma pequena observação: a cena em que Gansey encontra Ronan na igreja e o acorda. A escolha de palavras naquela cena é bem particular, não acham? Seria alguma dica sobre a verdade identidade de Glendower? Hmm…

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5 comentários sobre “Resenha: Os Garotos Corvos, de Maggie Stievfater (A Saga dos Corvos #1)

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