Resenha: Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo, de Benjamin Alire Sáenz

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Aclamado pela crítica e ganhador de diversos prêmios, Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo, escrito por Benjamin Alire Sáenz e lançado em 2012, é um romance YA de formação, que conta como a vida de Ari se transforma a partir do momento que conhece Dante. O sumário oficial do livro:

Dante sabe nadar. Ari não. Dante é articulado e confiante. Ari tem dificuldade com as palavras e duvida de si mesmo. Dante é apaixonado por poesia e arte. Ari se perde em pensamentos sobre seu irmão mais velho, que está na prisão. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de ver o mundo, deveria ser a última pessoa capaz de romper as barreiras que Ari construiu em volta de si. Mas quando os dois se conhecem, logo surge uma forte ligação. Eles compartilham livros, pensamentos, sonhos, risadas – e começam a redefinir seus próprios mundos. Assim, descobrem que o amor e a amizade talvez sejam a chave para desvendar os segredos do Universo.

Esse foi um livro bastante recomendado para mim, por razões óbvias: adoro histórias de formação, adoro livros “históricos” (no sentido de se passarem no passado, não que são baseados em histórias reais), e estou sempre a procura de livros com protagonistas lgbt. Sendo assim, comecei a ler com bastante expectativas; algumas que foram alcançadas, outras não.

Primeiramente, não posso deixar de dizer que o estilo de escrita de Benjamin Alire Sáenz não é dos meus preferidos. Ele escreve em frases curtas e simples, e com muitos diálogos diretos sem nenhuma descrição. É claro, isso não quer dizer que ele seja um mau escritor; apenas significa que meus gostos não se alinham com os dele. Afinal, algumas das minhas escritoras favoritas são Margarett Atwood e Virginia Woolf, eu gosto do completo oposto de “frases curtas e simples, sem muitas descrições”! Outras resenhas descrevem a escrita de Benjamin Sáenz como “poética”, então é obviamente uma questão de gosto. Esse é um problema (ou uma vantagem?)  da literatura, muitas vezes não é uma questão do livro ser bom ou ruim, mas sim uma questão de gosto.

Outra questão de gosto é a questão do protagonista. Pessoalmente, não gostei de Ari, e passei grande parte do livro irritada com ele. Por outro lado, Ari é o personagem favorito da minha irmã, então novamente o que aconteceu foi que apenas não consegui me conectar com o personagem. Seu arco principal, pelo menos se tratando de sua sexualidade, não me prendeu à narrativa ou despertou meu interesse.

Estava prestes a dizer que histórias sobre “negação da própria sexualidade” simplesmente não me interessam, mas aí lembrei que o arco pessoal do Ronan é meu preferido de A Saga dos Corvos, e trata exatamente disso. Acho que a diferença entre os dois, que me fez amar Ronan mas ficar irritada com Ari, está em como os escritores executaram a mesma premissa. Quero falar mais detalhadamente sobre a narrativa de Ronan quando escrever a resenha de Ladrões de Sonhos, mas resumidamente, enquanto Ronan está em negação, a narrativa em si dá dicas aos leitores sobre o que ele realmente está sentido durante toda a história. Seus sentimentos são exteriorizados na narrativa, apenas não nomeados como o que realmente são.

Ari, por outro lado, tem sua negação trabalhada de um jeito completamente oposto: pela completa exclusão de qualquer menção ao que esteja realmente sentindo. Assim, o desenvolvimento de sua relação com sua sexualidade é realizada pelo o que não aparece no livro, pelo invisível, até o clímax final, onde a verdade é basicamente arrancada de Ari, e ele é forçado a confrontá-la. Essa súbita mudança do invisível para visível acabou parecendo muito forçada para mim; senti falta de um crescimento gradual da visibilidade de seus sentimentos, como acontece com Ronan.

Minha última crítica (última, prometo!) refere-se ao diálogo. Talvez seja algo que deve-se esperar de um livro intitulado “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo”, mas muitas vezes achei as conversas entre Ari e Dante – principalmente na primeira parte do livro – pretensiosas e forçadas. Isso melhora conforme a narrativa é desenvolvida e a história vai tomando forma, mas os primeiros capítulos foram difíceis de serem lidos por alguém como eu que odeia protagonistas adolescentes ao estilo John Green, que parecem obstinados a mostrar o quão “diferentes do resto das pessoas” eles são.

Bom, com todas essas críticas, eu obviamente odiei o livro, certo? Errado! Ari e Dante é dividido em seis partes, e passei a gostar do livro por volta da metade da segunda parte, quando sua narrativa começa a tomar forma e a verdadeira história do livro é revelada. E gostei de Ari e Dante por dois motivos, que quantificados desse jeito parecem pequenos – principalmente após criticar o estilo de escrita e diálogo -, mas que são na verdade o espírito e a grande força do livro: o elenco de personagens, e os temas do livro.

Sim, não gostei do desenvolvimento (ou melhor, falta de desenvolvimento) do tema da sexualidade de Ari, mas esse não é o único tema tratado no livro; de fato, é o menos importante para a história. Grande parte da identidade dos personagens resultam de serem “mexicanos-americanos”, e o que exatamente isso significa. Ari tem diversas conversas com Dante, e sua mãe, sobre o que significa exatamente ser mexicano nos Estados Unidos, especialmente naquela época, 1987.

Família é outro tema importante para o livro, se não o mais importante. Grande parte dos problemas de Ari tem origem em sua família – nunca ter conhecido o irmão, não conseguir se comunicar com o pai -, mas, ao mesmo tempo, sua família é também sua maior fonte de apoio. Benjamin Sáenz nunca comete o erro de tornar as famílias dos personagens em caricaturas, totalmente terríveis ou totalmente perfeitos. Ari tem uma família que o ama, mas isso não significa que não haja problemas entre eles; muitas vezes, surgidos justamente do amor que sentem um pelo outro. Mais importante, a família inteira trabalha junta para resolver seus problemas.

Ari e Dante é um romance de formação, ou seja, relata a jornada de crescimento de uma criança/adolescente em um adulto. Ari passa o livro inteiro tentando descobrir e entender sua identidade. Ele não só está na etapa confusa de ser adolescente (é um menino ou um homem?), mas Ari também tem que descobrir quem é ele em relação a sua etnia, em relação a sua família, e, quando todos esses outros problemas já foram resolvidos, em relação a sua sexualidade.

O livro tem temas fortes, mas que não poderiam ser sustentados sem um elenco igualmente forte de personagens. Felizmente, Benjamin Sáenz também é bem sucedido nesse ponto. Os pais de Ari e Dante não são caracterizados apenas como pais, mas sim pessoas com qualidades, defeitos, e características únicas, que também se desenvolvem ao longo da narrativa. As mães dos meninos, em especial, me encantaram com suas personalidades.

Porém, a estrela do livro na minha opinião não pode deixar de ser Dante. O leitor consegue entender seus sentimentos mesmo quando Ari está sendo (propositalmente) obtuso, e conforme Ari se apaixona por Dante, o mesmo ocorre com o leitor. Dante tem uma jornada similar à de Ari em pontos, mas totalmente oposta em desenvolvimento: aceitou que gostava de meninos bem antes (e sofre as consequências de tal revelação), mas luta com sua identidade de “mexicano verdadeiro”. Durante diversas partes do livro desejei que ele fosse o narrador, e não Ari, pois sua jornada captou meu interesse de um jeito que não ocorreu com o personagem principal.

Em suma, Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo não se tornou um dos meus livros favoritos, mas foi uma leitura rápida (terminei em menos de um dia) e prazerosa. Terminei o livro e imediatamente desejei por uma continuação (ou, admito, um livro da perspectiva do Dante), ficou aquele gostinho de quero mais, e vontade de ver como a relação dos dois garotos se desenvolverá.

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Um comentário sobre “Resenha: Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo, de Benjamin Alire Sáenz

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