Resenha: Ladrões de Sonhos, de Maggie Stiefvater (A Saga dos Corvos #2)

Ladrões de SonhosEssa é uma resenha de um livro que faz parte de uma série. Para ler a resenha do primeiro livro de A Saga dos Corvos, clique aqui.

(EDIT: Uma resenha em vídeo de toda a série A Saga dos Corvos, sem spoilers, está aqui.)

Maggie Stiefvater disse em um de seus posts no tumblr que a série A Saga dos Corvos não começou com Os Garotos Corvos e Blue Sargent; mas sim com Ladrões de Sonhos, e Ronan Lynch. A Saga dos Corvos primeiro veio a Stiefvater como uma sequência de sonhos extremamente vívidos, uma luta entre identidade pessoal e religião, e corridas de carro; apenas depois a história principal de Gansey e Blue tomou forma. Talvez seja por isso que Ladrões de Sonhos seja um livro tão completo por si só – obviamente funciona como um segundo livro em uma série, mas seu arco principal é conciso, iniciando e terminando no mesmo livro.

Ladrões de Sonhos, basicamente, é um grande arco de identidade. Todos os personagens passam por mudanças e revelações, mas o foco do livro é Ronan – justamente o garoto que não teve nenhum capítulo para si no primeiro livro, por motivos que são revelados no segundo -, e sua transformação é completa em Ladrões de Sonhos, enquanto os outros personagens ainda carregam seus arcos para o próximo livro.

Não é porque a história de Ronan é desenvolvida em um livro, ao contrário dos outros personagens, que isso signifique que seja uma história simples; Stiefvater optou por focar um livro inteiro em um personagem justamente porque precisava do espaço para desenvolver Ronan do modo que merece. Nós partimos do exterior abrasivo de Ronan, da imagem que formamos dele no primeiro livro, e lentamente somos apresentados à sua jornada interior extremamento introspectiva.

Ladrões de Sonhos nada mais é do que uma lenta revelação dos segredos de Ronan, onde o clímax do livro se dá na revelação do último e maior segredo de todos; onde finalmente sua imagem exterior e sua vida interior são unidas, e começam a fazer sentido, retrospectivamente, para o leitor. Apenas após a revelação final do livro que o leitor se lembrará de pequenos momentos anteriores e pensará “ah, então é por isso que Ronan agiu de forma x ou y!”.

É claro, para escrever com sucesso um arco de personagem relativamente complexo como esse, a autora precisou primeiro planejar muito. Tal planejamento aparece nas páginas do livro não só nos detalhes da prosa, e nas cuidadosas descrições de cada cena e sonho, como também aparece na criação de dois personagens: Kavinsky, e o Senhor Cinzento. Antagonistas do livro, foram criados para ajudar no desenvolvimento do personagem principal. Isso é especialmente verdadeiro para Kavinsky: ele é o foil, o espelho de Ronan. Ambos têm a mesma história, e o mesmo poder, mas o que decidem fazer com isso é o que, por fim, os separam entre “herói” e “vilão”. O Senhor Cinzento, por sua vez, está no meio termo dessa balança, como o final de Ladrões de Sonhos prova.

Além de Ronan, o outro personagem que na minha opinião tem um arco pessoal maravilhoso nesse livro é Adam. Seus problemas não acabaram simplesmente porque conseguiu escapar de seu pai abusivo no final do livro anterior: ele tem que, agora, começar a lidar com as consequências desse abuso. A Stiefvater faz algo muito importante aqui, que é mostrar consequências de relacionamentos abusivos que normalmente são convenientemente deixadas de lado na maioria da ficção que lida com esse tema: a criança filha de pais abusivos internaliza muitos dos comportamentos dos pais, pois não tem nenhum outro modelo de conduta. E mesmo quando o filho abusado está ciente desse fato, como é o caso de Adam, ainda assim é difícil quebrar esse ciclo de violência. Stiefvater mostra esse processo de maneira respeitosa, sem nunca culpar Adam – mas ao mesmo tempo, também não as justifica: a narrativa dá razão à Blue por não aturar o comportamento errático de Adam, sem transformá-lo em um vilão.

Esse livro é o ponto mais baixo para Adam no geral. Ele tem que lidar com diversos problemas durante o livro: sua constante pobreza e inabilidade de pagar a mensalidade da escola, as consequências psicológicas dos seus anos de abuso, e, como se não bastasse, agora precisa também aprender a lidar com Cabeswater, e entender sua barganha com a floresta. O conteúdo mágico aumenta consideravelmente do primeiro livro para esse; tanto as visões de Adam, quanto os sonhos de Ronan, além de Cabeswater por si mesma, são exploradas em detalhes em Ladrões de Sonhos. A família clarividente de Blue também ganha mais importância na narrativa, e conhecemos mais sobre cada uma das mulheres que moram na casa.

As famílias em geral são muito importantes em Ladrões de Sonhos; como é um livro que trata de arcos de identidade, as famílias dos personagens são usadas para ajudar a informar o leitor como Gansey, Adam, Ronan, e Blue são do jeito que são. Seja pela ausência dessa família, como é o caso de Adam, seja pelo contraste: a relação positiva de Blue com sua família contrastada com a relação de Ronan com sua família.

Não é a toa que Ladrões de Sonhos seja o livro preferido de muitos dos leitores de A Saga dos Corvos. Pessoalmente, ainda não consigo decidir qual livro gosto mais, esse ou Lírio Azul, Azul Lírio – uma releitura talvez ajude a formar uma opinião -, mas é inegável que Ladrões de Sonhos é o livro mais bem estruturado da série, pelo menos até agora. Há muito conteúdo nesse livro, e muitos temas que rendem diversas análises diferentes. Poderia fazer um post inteiro só sobre os sonhos de Ronan, ou só sobre as visões de Adam. A Stiefvater também planta diversas dicas e mistérios nesse livro: qual seria o significado da máscara do sonho de Ronan, por exemplo? Teremos que esperar pelo último livro para descobrir, mas isso não nos impede de criar diversas teorias!

Para terminar, queria perguntar sobre a opinião de vocês em relação a dois tópicos bem polêmicos desse livro, pelo menos entre os fãs que conheço. Primeiro: Kavinsky mereceu seu final ou não? E segundo: Quem tinha mais razão na briga entre os dois, Gansey ou Adam? Admito que tenho opiniões muito fortes sobre esses dois assuntos, haha, mas também quero saber o que vocês acham!

Para ler a resenha do terceiro livro de A Saga dos Corvos clique aqui.

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2 comentários sobre “Resenha: Ladrões de Sonhos, de Maggie Stiefvater (A Saga dos Corvos #2)

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