Leituras do Mês: A História Secreta, Beleza e Tristeza, O País das Neves, Fingersmith, For Real, e Axel’s Pup

colagem livros

Essas últimas semanas foram bastante produtivas em relação a leitura. Terminei os últimos livros para a faculdade e finalmente pude me esbaldar sem culpa nas minha leituras “por prazer”; finalmente terminei A História Secreta, e li alguns livros mais leves e casuais, rápidos de terminar. Não tenho muito o que dizer sobre cada um deles para que justifique um post separado de resenha para cada um, então decidi fazer um apanhado geral. Mini resenhas para todos!

Começando com a última leitura para a faculdade:

O País das Neves e Beleza e Tristeza, de Yasunari Kawabata

Dois dos livros mais famosos de Kawabata – O País das Neves até lhe rendeu um Nobel -, ambos tratam de temas semelhantes: tradição vs modernidade, a sutileza do uso dos espaços vazios, a falta de movimento, e a diferença entre o ponto de vista do personagem e a realidade. Os dois tratam de homens que reencontram suas antigas amantes depois de muito tempo, e acabam se dividindo entre duas mulheres diferentes (muitas  vezes entre uma “mais moderna” e outra “mais tradicional”).

Apesar das semelhanças, os dois livros ainda são diferentes o suficiente para não serem repetitivos, e tornando possível escolher um favorito: apesar de O País das Neves ter ganho um Nobel, Beleza e Tristeza é meu favorito. O País das Neves, como o nome já deixa a entender, se passa todo em uma cidade pequena de invernos rigorosos; Kawabata trabalha bastante nesse livro o simbolismo da neve, do silêncio, da falta de ação. Beleza e Tristeza, por sua vez, não é um livro tão parado, devido a presença da personagem Keiko. Ela não só causa toda a ação do livro, como também assegura que haja uma relação entre as duas mulheres da história, ao contrário do que ocorre em O País das Neves.

Beleza e Tristeza ainda trata de dois assuntos não presentes em O País das Neves: vingança – Keiko quer se vingar em nome de Otoko, por tudo que Otoko sofreu enquanto era amante do protagonista Oki -, e lesbianismo – Keiko e Otoko estão em uma relação amorosa tratada por Kawabata com muita delicadeza. Mais do que a relação entre Oki e Otoko, é a relação entre Keiko e Otoko que move a narrativa.

Principalmente para leitores que não são familiares com literatura japonesa, recomendaria ler primeiro Beleza e Tristeza, para se acostumar com as partes do livro “paradas”, onde se estuda o silêncio e o espaço vazio. Ambos, porém, são leituras compensadoras. E também leituras rápidas: os livros são curtos e sem uma linguagem extremamente rebuscada.

Agora, as leituras “por prazer”. Podem perceber que arranjei por ordem de leitura – o que fui terminando primeiro -, mas, coincidentemente, essa é também a ordem de vergonha: dos livros menos vergonhosos para os mais vergonhosos…

A História Secreta, de Donna Tartt

Comecei a ler esse livro por volta de três meses atrás, e o terminei só agora. Essa demora foi em parte porque o livro é longo – por volta de 572 páginas -, mas principalmente porque é muito denso. Só por comparação, o último livro dessa lista tem praticamente o mesmo número de páginas (568), e o terminei em um dia. Donna Tartt tem um estilo de escrita bastante rebuscado, e além disso ela insere o máximo de informação possível que seus parágrafos podem aguentar. Isso resulta em uma leitura lenta, obrigando o leitor a prestar atenção a cada detalhe; mas, por outro lado, essa é também uma leitura emocionando e inteligente.

A História Secreta conta a história de um grupo de alunos que estudam grego na faculdade; seu curso é apenas com um professor, e suas aulas são apenas entre eles, isolando-os do resto dos alunos. Nosso protagonista, Richard, vê esse grupo de alunos misteriosos e fascinantes, e decide que quer se juntar a eles; assim, troca seu curso para grego.

O livro não só tem seus personagens fascinados com peças e pensadores gregos, mas a própria estrutura da história segue o de certas tragédias gregas. Por exemplo, no começo do livro nós já sabemos de seu final: no primeiro capítulo, Richard já confessa que esses alunos acabarão assassinando um de seu próprio grupo, Bunny. O que o leitor precisa descobrir é como esse fato acontece, e quais serão suas consequências. O conceito de “falha fatal” também aparece: uma falha do(s) protagonista(s), muita vezes ligada a seu ego ou a hubris, será o responsável por levá-lo à ruína.

(Qualquer semelhança com How To Get Away With Murder muito provavelmente não é mera coincidência)

Apesar das várias referências ao grego e latim durante o livro, um leitor não familiarizado com esses assuntos ainda assim poderá acompanhar e entender a história sem problemas. O grande ponto forte de A História Secreta são os personagens: o leitor rapidamente se vê tão fascinado por esse grupo de alunos misteriosos quanto Richard. Donna Tartt vai espalhando pequenos pedaços de caracterização durante todo o livro; o leitor vai aprendendo, pouco a pouco, quem são esses personagens, até que no final do livro todos esses detalhes espalhados que pareciam não ser importantes formam uma imagem final onde tudo, subitamente, faz sentido. Você não conhecerá completamente os personagens até o último capítulo, e irá se surpreender até a última linha.

Fingersmith, de Sarah Waters

Fingersmith conta a a história de Sue, uma menina de uma família de ladrões que é convencida a entrar em um esquema criado pelo vigarista chamado Gentleman: finja ser a empregada de uma rica moça chamada Maud, ajude Gentleman a seduzí-la e, após o casamento, se livrar dela, e assi um terço da fortuna da menina será de Sue. Parece simples o bastante; mas tudo se complica quando Sue acaba se apaixonando por Maud.

Toda a história se passa na era Vitoriana de Londres, e parece previsível o bastante. O livro é dividido em três partes, e a primeira parte se passa exatamente como o leitor espera… até, é claro, o grande choque no final da primeira parte. A partir daí, é uma revelação atrás da outra, um acontecimento mais imprevisível e inesperado que o outro. A história se torna um trem correndo desenfreado em direção a um precipício, com o leitor preso dentro dele. Não há muito que eu posso dizer além disso sem dar spoilers, então apenas saiba que tudo vira de cabeça para baixo.

Maud e Sue são personagens não apenas muito bem construídos, mas também com um crescimento muito bom durante o livro. A escrita de Sarah Waters é fluida, e apenas rebuscada o suficiente para ajudar a imersão do leitor na era Vitoriana.

For Real, de Alexis Hall

Agora começam os livros vergonhosos, haha. Comecei a ler esse por indicação de amigas, que acharam o livro diferente. For Real narra o romance de Laurence Dalziel e Toby Finch. Mas é agora que as coisas ficam interessantes: Laurie tem quase quarenta anos, é um médico respeitável, e bastante intimidador. Toby tem dezenove e é como qualquer outro recém-adulto, perdido e sem ideia do que quer da vida. Os dois se conhecem em um clube de sadomasoquismo… e Laurie é o submissivo, e Toby o dominante.

…..Bom, quem não sabe muito sobre BDSM pode parar por aqui, ou ir dar uma procurada no wikipedia se tiver curiosidade (só prossiga com cuidado). O foco do bdsm no livro é sexual, não no relacionamento em si; ou seja, fora da cama eles são um casal “normal”, o que talvez acalme os mais assustados, haha. A escrita em si também é muito boa, e muda seu estilo visivelmente com as mudanças de narradores. A linguagem usada quando Laurie narra é mais intricada, em certos momentos quase poética. Já nos capítulos onde Toby é o narrador, a linguagem é visivelmente mais simples e informal, quase informal demais em certos pontos.

O meu problema com esse livro, que me impediu de apreciar a história tanto quanto minhas amigas apreciaram, foi justamente o ponto da diferença de idade. O objetivo do autor era obviamente subverter os esteriótipos de “submissivo” e “dominante”, com o submissivo sendo mais imponente que o dominante. Mas, pessoalmente, não vi necessidade da diferença de idade ser tão grande. Me sentiria desconfortável com qualquer casal onde um tivesse 37 e outro 19 anos; há aí uma diferença de maturidade muito grande, que não é realmente trabalhada pelo autor. Isso me impediu de entrar totalmente no universo do livro, porque em vários momentos pensava “meu deus o que esse cara de quase quarenta anos tá fazendo com esse pirralho????” …..como podem ver, o Toby me irritou em certos momentos, haha.

Axel’s Pup, de Kim Dare

Ok….. ainda não acredito que esse livro acabou sendo o meu preferido de todos os que li durante esse mês. Não acredito nisso. Qualquer um que olhe a descrição do livro vai provavelmente rir da minha cara; eu ri quando li a descrição desse livro! Pensei “meu deus que coisa ridícula, vou ler só pra zoar e dar uma risadas”…. pois é, quem acabou dando a última risada foi Kim Dare, porque li um livro de 568 páginas em menos de um dia. Não consegui largar do livro até terminar a história.

Axel’s Pup (meu deus que título ridículo) narra a história de Axel, dono do bar “The Dragon’s Lair” e líder do clube de motocicleta que sempre se encontra naquele lugar. É um clube comprometido de membros que são não só gays, mas que também fazem parte do “estilo de vida” BDSM. Eis que um belo dia, um homem chamado Bayden aparece no bar com uma motocicleta magnífica, disposto a aceitar qualquer briga, e obviamente um shifter… ou seja, um lobisomem.

“Ok peraí, esse livro não só é sobre BDSM DE NOVO mas dessa vez tem LOBISOMENS???” POIS É podem rir de mim porque eu também estava rindo! Até começar a ler e descobrir que a autora fez um trabalho incrível com o seu mundo, trabalhando-o de um jeito super interessante. Os lobos são tratados como cidadãos de segunda categoria nessa sociedade, discriminados em tudo. Isso talvez não seja muito inovador, mas o modo como Kim Dare trabalha essa diferença de classe é incrível. Além disso, ela ainda consegue transformar os lobos em pessoas com uma cultura visivelmente diferente da cultura dos humanos; Axel e Bayden têm não só que se entender como indivíduos, como também precisam entender a cultura um do outro para poderem se comunicar efetivamente. Grande parte do livro trabalha justamente isso: como um humano e um shifter aprendem a ser relacionar de modo saudável, sem que nenhum perca sua identidade individual.

Enquanto For Real foca apenas no aspecto sexual de BDSM, esse livro é focado naqueles que encaram BDSM como “estilo de vida”: Bayden não é só o submissivo de Axel durante sexo, mas também durante todo o tempo em que estiverem em um relação amorosa. Kim Dare trabalha isso de modo delicado, mostrando ao leitor a diferença entre um relacionamento desses e um relacionamento abusivo; como um é saudável, mesmo que diferente, e o outro causa danos incrivelmente graves na pessoa abusada. É menos focado no aspecto sexual (apesar de ainda estar presente) e mais no aspecto psicológico desse tipo de relação.

O estilo de escrita de Kim Davis é, honestamente, nada de especial. Seu ponto forte está em como seus personagens se relacionam. Ela consegue transformar uma premissa bizarra e ridícula em uma história que não apenas prende o leitor, como também o faz sofrer e vibrar com seus personagens. Kim Davis não pula nenhuma parte do processo por qual Bayden tem que passar até que consiga confiar plenamente em Axel. Algumas pessoas podem achar o livro devagar demais nessas partes, ou até repetitivo (“estão discutindo sobre assunto x de novo? Bayden resolve fazer y de novo??”), mas isso mostra como a autora está plenamente ciente do quão difícil é alcançar essa confiança plena almejada no livro.

Então não posso negar, me tornei vítima de um livro que parece tão ridículo que tenho até vergonha de estar falando sobre ele…. mas que no final acabou surpreendendo muito. Quando terminei fui diretamente para o Goodreads e não só Axel’s Pup (o título continua sendo ridículo, ai deus) ganhou 4.19 estrelas (4.19!! Isso é mais que muito livro por aí!!!), mas também a autora confirmou uma continuação. Insira gritinhos de alegria aqui, por favor.

Além desses livros, ainda li dois livros de poesia: I Wrote This For You de pleasefindthis, e Twenty Love Poems and a Song of Despair de Pablo Neruda. Acabei não os incluindo nessa resenha geral porque, sinceramente, sei muito menos sobre poesia do que sobre prosa. Mas esses dias comecei a pensar que talvez fosse interessante fazer um post sobre livros de poesia. Alguém teria algum interesse nisso? Acho poesia um gênero tão esquecido porque a maioria das pessoas acha que é difícil de entender ou extremamente chato (mas na verdade só estão traumatizados com o que foram obrigados a ler na escola), mas há muitos poetas legais por aí. Principalmente poetas novos, que precisam ganhar mais atenção.

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