Resenha: O Último Lobisomem, de Glen Duncan

o ultimo lobisomemJake Marlowe é um lobisomem, sarcástico e tem crises existenciais. Durante duzentos anos, vagou pelo mundo, escravizado por seus apetites lunáticos e atormentado pela memória de seu primeiro e mais monstruoso crime. Agora o ultimo de sua espécie, ele perdeu a vontade de viver. Mas enquanto Jake se prepara para morrer, um assassino violento e um encontro extraordinário mergulham-no diretamente de volta á busca desesperada pela vida – e pelo amor.

Faz tempo que essa série está na minha lista de livros para ler, e quando vi o segundo livro – A Ascensão de Talulla – com 75% de desconto na Saraiva, não pude resistir. Ao todo, O último Lobisomem é uma trilogia, mas apenas os dois primeiros livros foram publicados no Brasil (provavelmente porque foram lançados em 2011, enquanto o último livro foi lançado apenas em 2014). Resolvi comprar as edições brasileiras mesmo com o último livro faltando, porque o dólar não tá pra ninguém agora, e não resisto a livro com 75% de desconto (R$9,90!!!).

A opinião das meninas que me indicaram essa série foi de que O Último Lobisomem é bom, mas A Ascensão de Talulla é a verdadeira estrela da série. Como não li o segundo livro ainda não posso opinar, mas realmente saí de O Último Lobisomem mais empolgada pela continuação – pela oportunidade de ter a Talulla como personagem principal – do que pela história do primeiro livro em si. Isso não significa que não gostei do livro – muito pelo contrário -, mas minhas partes favoritas foram justamente as com Talulla.

Mas expectativas para o segundo livro a parte, falemos sobre O Último Lobisomem em si. Primeiro, gostaria apenas de dizer que a tradução/edição deixou um pouco a desejar: houve partes o suficiente do livro que soaram estranhas ou truncadas por conta da tradução para que se tornasse um incômodo. Obviamente não li o original, mas quando traduzia de volta para o inglês as partes que me pareceram estranhas, elas passavam a fazer completo sentido. Gostaria que tivesse ocorrido um pouco mais de cuidado na hora da edição do livro.

As partes que soaram um pouco estranhas em português são justamente as partes que têm gírias no original inglês. O estilo de escrita de Glen Duncan é bastante interessante: ele tem um estilo eloquente e desenvolto, mas que ao mesmo tempo insere as já citadas gírias na narrativa, vários palavrões, e descrições secas e vulgares de morte, sexo, e decadência. Para os que entendem um pouco de teoria literária clássica, Glen Duncan brinca com o que é considerado “Alto” e “Baixo”, misturando as duas formas em seu texto.

Essa mistura de estilos reflete o grande tema do livro, que é justamente a justaposição entre ser humano e animal. Jake, nosso protagonista, é um homem intelectual com grande conhecimento de cultura e filosofia. Durante seu diálogo interno, discorre sobre moralidade, religião, e o sentido (ou falta dele) da vida; porém, a selvageria do lobo está sempre presente, fervendo logo abaixo da superfície, esperando por qualquer tropeço do Jake humano para aparecer. As cenas de Lua Cheia são as minhas favoritas do livro, pois são onde essa dicotomia humano versus animal é potencializada de uma forma inesperada: o lobo não é menos racional que o humano; ao contrário, Jake afirma que, transformado, seus pensamentos se tornam mais claros. Não é a capacidade de raciocínio que muda, mas sim suas prioridades. Ao invés de agonizar sobre questões de moralidade, o lobo foca-se apenas em seus instintos de caça por comida e sexo. Como lobo, Jake abandona sua depressão e vontade de morrer. Sua relação com a natureza e a vida no presente são as únicas coisas que se tornam importantes.

Quanto ao enredo, O Último Lobisomem dá várias pisadas em falso – momentos em que você pensa “ah, agora o verdadeiro enredo/mistério vai começar” mas que acabam não dando em nada – até a aparição de Talulla na metade do livro. É claro, isso faz sentido tematicamente: Jake quer morrer, não tem mais interesse pela vida, logo qualquer engajamento com “mistérios” ou “missões” não dará certo. O engajamento com o mundo real, ou seja, “a história irá andar”, só ocorre quando Jake decide viver.

Como personagem, preciso admitir que Jake chegou a me irritar durante certas partes do livro. A aparição de Talulla é realmente o ponto alto do livro; não apenas Jake passa a ser um objeto ativo em sua própria história, como também a própria personalidade de Tallula deixa o livro mais animado. O fato de que Jake a considera uma lobo melhor que ele, apesar do pouco tempo em que foi transformada, já diz muita coisa.

No geral, O Último Lobisomem é uma leitura intrigante e divertida, que trata o mito do lobisomem de forma bastante interessante. Enquanto Jake se mostra um personagem indispensável e necessário à narrativa – essa história não poderia ser contada por qualquer outro protagonista -, essa é uma das únicas vezes em que eu, que sempre dou mais atenção aos personagens do que ao resto da história, me apaixono mais pelo mundo criado no livro do que pelo protagonista. Porém a falta de animação com Jake é recompensada por personagens secundários ótimos, liderados por Talulla. A continuação com Talulla como protagonista seria nada menos do que esperada.

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2 comentários sobre “Resenha: O Último Lobisomem, de Glen Duncan

  1. Pingback: Resenha: A Ascensão de Talulla, de Glen Duncan (O Último Lobisomem #2) | Raposísses

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