Cinco Autoras para conhecer no Dia Internacional da Mulher

Dia Internacional da Mulher
Adivinha quem esqueceu completamente que o Dia Internacional da Mulher estava chegando? Isso mesmo, essa pateta aqui. Em minha defesa, já sou completamente perdida no tempo, e com o stress da faculdade começando a pegar estou mais perdida ainda. Só lembrei que dia era hoje quando abri o twitter e vi treta rolando (é claro) sobre “mimimi cadê o dia do homem?”. Ai que preguiça heim, gente.

Mas é claro, mesmo incrivelmente atrasada (no momento são 3 e meia da tarde e só agora estou começando esse post, oi), simplesmente não posso deixar esse dia passar batido, por um fato muito simples (e não, não é o fato de eu ser mulher – ou pelo menos não só isso): a maioria dos livros que leio são livros escritos por mulheres. E isso não foi uma simples obra do acaso; é uma escolha que faço toda vez que vou escolher um livro para ler. Como em basicamente qualquer outro espaço, a mulher tem um problema de visibilidade no espaço literário. O ponto de vista do escritor homem é muitas vezes priorizado sobre o da escritora; e assim, o leitor perde várias leituras incríveis, inovadoras e diferentes, simplesmente porque nunca ouviu falar da escritora x, apenas do escritor y.

Tendo dito isso, resolvi fazer um rápido post de recomendação de escritoras. São cinco mulheres, velhas e novas, consagradas e desconhecidas, que já têm seus livros publicados no Brasil ou não. São todas escritoras que considero parte da minha lista de escritores (homens e mulheres) favoritos, e que escreveram livros que realmente me impactaram e mudaram como enxergo o mundo. Realmente acredito que todo ser humano deveria lê-las pelo menos uma vez na vida.

Mas chega de introdução, e vamos direto à lista:

1. Margaret Atwood

Vamos começar essa lista com força e indicar uma das pessoas mais influentes da literatura. Margaret Atwood é uma escritora canadense, nascida em 1939 e, antes que perguntem, sim, ainda viva hoje. Atwood escreve de tudo: prosa e poesia, ficção e não-ficção, literatura infantil e adulta, literatura contemporânea e ficção científica… nunca vi uma mulher mais versátil. Não há um ponto em específico que é possível apontar como seu ponto forte, porque a cada livro ela muda seu foco: enquanto um livro é psicológico e foca quase exclusivamente na vida interior das personagens, o outro conta a história de uma distopia, onde o mundo nos fascina tanto quanto nos aterroriza. Tudo isso com seu estilo de escrita inconfundível, bastante descritivo e atmosférico.

Dois livros de Margaret Atwood para ler:
O Conto da Aia: Provavelmente o livro mais conhecido de Atwood, conta a história de uma distopia teocrática passada em um futuro próximo, onde as mulheres perderam todos os seus direitos e são extremamente oprimidas. A protagonista é uma aia, ou seja, uma mulher escolhida por sua “habilidade” de reprodução em um mundo onde grande parte das pessoas são estéreis, à serviço de uma família de elite. É um livro forte, e terrível, e assombrador, e bastante relevante para os dias de hoje.
O Assassino Cego: No Canadá da década de 30 e 40, esse livro segue a vida de Íris Chase Griffen, uma mulher na casa dos oitenta anos e que é o último membro de sua família. Ao mesmo tempo que relata os acontecimentos do seu dia-a-dia, conta o passado de Íris com sua irmã mais nova, seu pai, e seu casamento; assim como relata partes do livro que a irmã de Íris escreveu, “O Assassino Cego”. É um livro dentro de um livro, ganhador do Booker Prize de 2000, e que realmente deixa à mostra o quão talentosa Margaret Atwood é.

2. Helen Oyeyemi

Helen Oyeyemi é uma escritora da Inglaterra que graduou de Cambridge em 2006 e já escreveu sete livros. Não há nenhuma palavra que descreva essa escritora além de “mágica”. Sua escrita, suas personagens, seus enredos, tudo tem uma pitada de mágica que separa Oyeyemi de outros escritores. É uma escritora que não tem medo de contar “histórias estranhas”, seja sobre uma casa que está viva, ou um escritor que interage com a personagem que criou. Seu estilo de realismo mágico realmente dá ao leitor a impressão de que ninguém além de Oyeyemi poderia ter escrito seus livros. Além disso, ela sempre incluiu em seus livros, além do tema do feminino, também o tema da raça – afinal, é uma escritora negra em um espaço dominado predominantemente por brancos.

Dois livros de Helen Oyeyemi para ler:
White is for Witching: O primeiro livro de Oyeyemi que li, e o livro que até hoje indico tanto que a única coisa que falta é bater nas pessoas com esse livro até que leiam. Eu sei que falei que todos os livros dessa escritora são mágicos, mas esse livro em especial é o mais mágico de todos; é seu ponto alto, sua obra-prima (pelo menos até agora). White is for Witching conta a história de Miranda, uma menina com uma doença rara chamada pica, que a faz ter vontade de não comer alimentos, mas sim objetos não comestíveis; e conta a história da casa onde a família de Miranda mora, uma casa que está viva, e quer Miranda para si.
Boy, Snow, Bird: Boy, Snow, Bird é uma releitura de Branca de Neve, mas não no sentido em que você já deve estar pensando. Esse livro conta a história de Boy, uma moça que deixa a Nova York de 1953 para trás junto com seu passado e recomeça sua vida em uma pequena cidade em Massachusetts. Lá, ela se casa com um homem rico, parte da família de elite Whitman, e se torna madrasta de uma menina chamada Snow. Tudo muda, porém, quando Boy dá a luz à Bird, uma menina negra que revela os Whitmans como negros de pele clara que fingiam ser brancos. Boy nunca pensou que poderia se tornar a madrasta malvada dos contos-de-fadas, mas dessa vez talvez ela não tenha nenhuma outra alternativa.

3. Diana Wynne Jones

Diana Wynne Jones é uma autora de fantasia e livros infantis, que nasceu na Inglaterra em 1934 e morreu recentemente em 2011. Jones é mais conhecida por seu livro O Castelo Animado (Howl’s Moving Castle), que ganhou adaptação pelo estúdio de animação japonês Ghibli e fez muito sucesso. Mas para os que ainda não a conhecem, aqui vão dois fatos para já entenderem o nível dessa mulher: seus livros são comparados a Harry Potter, e considerados uma das inspirações para JK Rowling; e Neil Gaiman é um grande fã de Jones. Ela não é nenhum peixinho pequeno no mundo literário, não.

Diana Wynne Jones é uma daquelas escritoras que é classificada como “para crianças” mas que na verdade consegue tocar e entreter leitores de todas as idades. Ela é expert em construção de mundos fantásticos; tão expert que muitas vezes decide parodiar vários clichês do gênero. Jones mistura magia e humor como ninguém, mas ao mesmo tempo consegue emocionar o leitor com suas histórias. Um ponto que acho muito interessante em sua escrita é o fato de a maioria de seus livros tratarem de relações familiares de algum modo. E não relações felizes e saudáveis, mas sim de crianças maltratadas pelos pais, ou irmãos que não se dão bem. É um tema bastante interessante quando levamos em conta o que normalmente é associado com “literatura infantil”.

Dois livros de Diana Wynne Jones para ler:
O Castelo Animado:
Não importa se você já assistiu o filme; leia o livro. Os dois são bem diferentes, e, apesar do Estúdio Ghibli ser incrível, nada consegue captar a mágica da escrita de Jones. O Castelo Animado conta a história de Sophie, uma jovem de 18 anos que trabalha criando chapéus e está infeliz com sua vida, e se acha medíocre em tudo. Até que é amaldiçoada por uma bruxa e se transforma em uma velhinha de 90 anos, e ao fugir, acaba se tornando a “faxineira” do castelo do grande mágico Hauru (Howl). Lá ela se encontra com vários personagens, tão amaldiçoados quanto ela, ou tão descontentes com a vida quanto ela; e, sem perceber, acaba mudando a vida de todos, inclusive a sua.
The Dark Lord of Derkholm: Diana Wynne Jones mostra todo seu talento para o humor e paródia nesse livro que parodia todos os clichês do gênero de fantasia. Essa é a história de um mundo fantástico, Derkholm, invadido pela indústria de turismo. Todo ano, visitantes “normais” entram no tour de Mr Chesney para se deleitarem com Derkholm: lutas, magia, o grande vilão, a bruxa sombria, criaturas fantásticas, o mago guia de tudo isso… e todo ano, as pessoas de Derkholm são obrigadas a fazer um papel nesse grande teatro. Porém, a população está cansada desa farsa, e o Conselho de Derkholm cria um plano para terminar com essa indústria de turismo: colocando o incompetente mago Derk como o grande vilão e seu filho como o mago guia do tour desse ano.

4. Hannah Moskowitz

Várias pessoas não conseguem ler Hannah Moskowitz por a acharem “estranha demais”, e é assim que você pode reconhecer essa autora como não só parte do meu top 3 de autores, mas também como a escritora que escreve livros diretamente para o meu coração. Hannah nasceu em 1991 nos Estados Unidos, e já tem nove livros publicados, todos YA e “estranhos” de algum jeito. O estranho já começa no estilo de escrita da autora: é uma prosa curta e direta em certas partes, quase poética em outras, com direito até ao uso de um fluxo de consciência em outros momentos. Sua narrativa consegue captar a voz de um adolescente – incluindo palavrões, frases errantes, e o já dito fluxo de consciência quase frenético em certas partes -, mas de algum jeito, ela consegue transformar toda essa bagunça em uma narrativa impactante. Seu ponto forte é sem dúvida seus personagens: todos muito complexos, com diversos problemas, e que impactam o leitor de algum jeito. Seu enredo, porém, não é menos especial; e muitas vezes, é onde seu realismo mágico “estranho” entra.

Dois livros de Hannah Moskowitz para ler:
Teeth:
Convenci mais uma amiga a ler esse livro recentemente (estou sempre tentando convencer todo mundo a ler esse livro) e quando ela terminou só recebi uma mensagem da dita vítima: “POR QUE FEZ EU LER ISSO, NÃO CONSIGO PARAR DE CHORAR!!”. Obviamente, respondi só com risadas. Todos irão sofrer como eu sofri… com uma das histórias mais bizarras de todos os tempos. Teeth conta a história de Rudy, um menino com um irmão mais novo muito doente, o qual tem sua última esperança de cura em peixes de uma ilha remota, que dizem curarem qualquer doença. Assim, sua família deixa tudo para trás e se muda para essa ilha. O irmão de Rudy finalmente começa a melhorar, mas em compensação ele se vê cada vez mais preso nessa ilha sem amigos, quase nenhum outro adolescente, ou qualquer tipo de entretenimento. Mas tudo muda quando Rudy conhece Teeth, um menino que encontra escondido na praia. Teeth, porém, não é apenas um menino: ele é uma espécie de sereia, com ligações sombrias com a ilha e seus peixes mágicos.
Not Otherwise Specified: Depois da esquisitice de Teeth, aqui está um livro normal, contemporâneo, sem qualquer tipo de mágica. Porém, para muitos esse livro ainda será considerado “esquisito”, apenas por conta de sua personagem principal: Etta é uma adolescente negra em uma cidade americana pequena, uma bissexual que foi excluída do seu grupo de amigas lésbicas por beijar um garoto, uma bailarina que parou de dançar pois todos a consideravam grande demais para o balé, e uma menina se recuperando de um distúrbio alimentar que não pode ser considerado anorexia, apenas “not otherwise specified”, porque ela nunca pareceu “doente o suficiente”.
Como deve estar óbvio, esse é um livro que lida com a questão de identidade; seja a falta de uma identidade, ou identidades demais. Porém, tudo isso é feito sem que o livro se transforme em um especial informativo do Globo Repórter, porque Etta está focada em uma missão: se mudar para Nova York e escapar de sua cidadezinha minúscula. Para isso, ela só precisa passar na audição para ser aceita na escola de artes Brentwood, e irá contar com a ajuda de Bianca, uma garota que Etta conhece no grupo de anorexia, e que é o total oposto de si.

5. Sylvia Plath

É claro que vou terminar minha lista com Sylvia Plath, por mais clichê que seja; estou fazendo isso justamente por conta do “clichê”. Acho que Sylvia Plath, e o mito que permeia sua imagem, incorpora a razão do Dia Internacional da Mulher ser tão importante e necessário. O mundo inteiro sabe da história de Plath: uma poeta americana que nasceu em 1932, e se suicidou em 1963. A imagem de Sylvia Plath, mulher doente e suicida, foi glamourizada desde sua morte. Porém, toda a atenção está em sua vida, em suas dificuldades, em sua imagem de “menina depressiva”, e seu trabalho literário acaba muitas vezes caindo para segundo plano. O que é uma pena, pois até hoje é possível ver sua influência na literatura, seja na prosa ou poesia. Sylvia Plath ajudou a criar o estilo de poesia confessional, e escreveu um livro semi-biográfico que trata de assuntos relevantes ainda hoje…. mas quando falam nela, lembram-se apenas de como “era doente”, e como se matou.

Dois livros de Sylvia Plath para ler:
Ariel:
 Última coleção de poemas de Sylvia Plath, foi publicado depois de sua morte, e, como não poderia deixar de ser, é rondado de mistérios e controvérsias ligados à sua vida; a controvérsia mais famosa é sobre seu marido, o poeta Ted Hughes, e como ele mudou Ariel antes de ser publicado, omitindo poemas que pintavam sua pessoa e seu casamento de forma negativa. Controvérsias a parte, Ariel é um livro celebrado por uma razão: sua qualidade é impecável. Foi Ariel que me fez começar a ler e gostar de poemas; não sabia que era possível um poema evocar tanta emoção até ler Lady Lazarus.
A edição que coloquei no link é a edição que tenho, onde há os poemas em inglês no original direto da máquina de escrever de Plath em uma página, e a tradução para o português em outra. Super recomendo, é uma edição digna do conteúdo maravilhoso.
A Redoma de Vidro: 
A única obra em prosa da autora, é um livro semi-biográfico que conta a história de Esther Greenwood, uma jovem talentosa e brilhante com todo o mundo pela frente… exceto seu estado mental. O livro acompanha Esther de uma universidade consagrada e um estágio promissor até uma clínica psiquiátrica, não poupando o leitor de cada detalhe da decadência da personagem. Mais uma vez, é famoso por seu aspecto semi-biográfico; porém, sua importância está em, até hoje, conseguir se conectar com a jovem mulher, em um mundo em constante mudança e pressão por todos os lados.

Além dessas cinco autoras, há várias outras mulheres que também merecem indicações: Catherynne M. Valente (ela só não apareceu nessa lista porque só li um livro seu; mas esse um livro, Deathless, não estou brincando quando digo que mudou minha vida), Virginia Woolf (apenas uma coisa: Mrs. Dalloway), Holly Black (acabei de terminar The Darkest Part of the Forest e estou sem chão? Holly Black, casa comigo) Maggie Stiefvater (se você me amasse de verdade, leria A Saga dos Corvos), Anne Sexton (estou lendo sua coleção de poemas e é um tiro atrás do outro), entre outras. Não falta nesse mundo autoras brilhantes com coisas novas para falar; o que falta às vezes é espaço para elas serem ouvidas. Isso, só o leitor consegue mudar.

Uma coisa que podem ter percebido nesse post é a completa falta de autoras brasileiras, e essa é uma falha que assumo: nunca percebi como não lia nenhuma autora brasileira até criar essa lista e não conseguir pensar em nenhuma; nem mesmo em Clarisse Lispector, porque nem mesmo os livros dela eu li. É um defeito que agora estou desesperada para corrigir. Então fica aqui essa pergunta: você tem alguma sugestão de autora brasileira para me dar? Se a vida já não está fácil para autoras, para autoras brasileiras deve estar ainda pior.

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2 comentários sobre “Cinco Autoras para conhecer no Dia Internacional da Mulher

    • Ah, que bom que pude introduzir essas escritoras pra você então, esses livros indicados são realmente todos livros pra vida ❤ pelo menos na minha opinião, haha. Volte sim! Amo ver as reações das pessoas depois de lerem Teeth (e White is for Witching, fikdik) hahaha

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