Bailey’s Women’s Prize 2016: O prêmio literário inglês para escritoras

baileys womens prize 2016

foto do twitter @BaileysPrize

Prêmios literários são uma coisa complicada. É o mesmo problema que tenho com o Oscar: uma bancada de “críticos” escolhe o “melhor” filme/livro do ano, mas isso realmente significa que o vencedor é o melhor filme/livro? É muito difícil fazer uma afirmação dessas sobre literatura, cinema, ou qualquer tipo de arte, porque o grande objetivo da arte é justamente sua subjetividade. Nesse tópico, sua ou minha escolha é tão válida quanto a escolhe desses “críticos profissionais”, pois se trata justamente de gosto pessoal.

Porém, há um ponto em que prêmios literários e prêmios como o Oscar ou Emmys se diferenciam: o Oscar e Emmys sempre fazem sua escolha a partir do que foi popular no cinema ou televisão naquele ano, ou seja, as produções com maior suporte financeiro. Nenhum seriado ou filme indie fará parte da lista de indicados. Com prêmios literários, acontece o oposto: a lista de indicados não é feita de livros que estão necessariamente fazendo sucesso com o público, mas sim de livros que, realmente, a banca de jurados leu e gostou. A lista final de indicados – chamada de “shortlist” – sempre acaba incluindo mais livros “desconhecidos” do que livros blockbusters.

É claro, algum cínicos dizem que isso não é nada mais do que uma estratégia de marketing: os jurados são incentivados a escolher tal ou tal livro “desconhecido” para que suas vendas aumentem. Mas sinceramente? Mesmo se essa teoria da conspiração for verdadeira, eu honestamente não me importo. Eu valorizo prêmios literários não porque acredite necessariamente no “vencedor”, mas porque a lista de indicados sempre me faz conhecer livros e autores de quem eu normalmente não ouviria sobre. Esse é o grande ponto forte de prêmios literários: darem uma chance para escritores não tão conhecidos assim.

Logo, partindo desse meu raciocínio, o BAILEYS Women’s Prize se torna um prêmio literário ainda mais importante, porque ele traz o foco não apenas para livros não tão conhecidos, mas sim para livros não tão conhecidos escritos por mulheres. E isso, infelizmente, ainda é algo importante. O BAILEYS Women’s Prize foi criado no Reino Unido em 1992 justamente porque os idealizadores do prêmio notaram a falta de mulheres nas listas de prêmios literários – em especial o Booker Prize 1991, que não incluiu nem uma única mulher em sua shortlist. Desde 92, o Women’s Prize vem trazendo visibilidade para diversas escritoras da língua inglesa, tendo em sua lista de vencedores Zadie Smith, Chimamanda Ngozi Adichie, e Ali Smith. Como podem ver, o prêmio não comete o erro de “dar visibilidade às mulheres” escolhendo apenas mulheres brancas; escritoras de diversas etnias são representadas, criando uma imagem bem mais realista de “mulheres” do mundo.

Em 2016, o prêmio contou com a participação das booktubers inglesas Jen, Lauren e Sanne, que leram e resenharam todos os livros da shortlist de 2016, assim como foram ao evento de anúncio do vencedor. Essa shortlist, inclusive, trouxe seis livros muito interessantes e diferentes:

  • Uma Pequena Vida de Hanya Yanagihara: O único livro popular em vendas da shortlist, o único já lançado aqui no Brasil, e o mais comentado – as pessoas parecem ou amá-lo ou odiá-lo. Esse livro acompanha quatro amigos que se mudam para Nova York após a faculdade, e o desenrolar de suas vidas a partir desse ponto. Apesar de ser um livro sobre quatro amigos, o personagem principal é Jude e seu passado misterioso. O livro discute em detalhes abuso infantil, abuso físico, e estupro.
  • The Portable Veblen de Elizabeth McKenzie: Esse é o livro mais “estranho” da lista, logo um dos que mais me interessaram! Conta a história de Veblen, que acabou de se tornar noiva, mas teme que seu noivo, Paul, não a conheça de verdade. Esse livro discute casamento, capitalismo, família, amor, a indústria médica… ah, e a protagonista acha que consegue conversar com esquilos.
  • The Green Road de Anne Enright: Conta a história de quatro irmãos que voltam para a casa de sua mãe na Inglaterra, para passar um último Natal juntos antes da venda da casa. Esse é um livro que não tem um “enredo” por si só, mas sim é um estudo de personagens, explorando o que é realmente o amor familiar.
  • Ruby de Cynthia Bond: Ruby, menina negra vivendo em uma pequena cidade de Texas, foge para Nova York assim que consegue. Essa é a história de sua volta anos depois, as circunstâncias que a levaram a voltar para a cidadezinha que a odeia, e do homem que a ama e esperou por ela todos esses anos. Contêm discussões sobre misoginia, racismo, e estupro. É o livro que estou mais animada para ler, pois parece misturar um conteúdo super pesado com uma escrita maravilhosa.
  • The Improbability of Love de Hannah Rothschild: Provavelmente o livro mais leve da shortlist; conta a história de Annie McDee, que acaba encontrando uma pintura super rara, e é arrastada para o mundo da Arte, com seus leilões, críticos profissionais, e bilionários excêntricos. Com personagens caricaturais e capítulos contados do ponto de vista da própria pintura, tenho a impressão que esse livro é uma comédia de erros muito bem executada – apesar de a capa e título darem uma impressão totalmente diferente.
  • The Glorious Heresies de Lisa McInerney: Finalmente, o último livro da lista e ganhador do BAILEYS Women’s Prize 2016! Esse livro conta a história de cinco irlandeses ás margens da sociedade, envolvidos em prostituição e tráfico. É um livro sobre como os indivíduos falham com sua sociedade, mas também sobre sobre como a sociedade falha com seus indivíduos.

Vim acompanhando esse prêmio desde que a shortlist de 2016 foi anunciada, e sinceramente não esperava que The Glorious Heresies vencesse. Não que esteja reclamando, é claro; apenas ganhei uma desculpa para ler esse livro! Mas dessa lista, estou muito animada para ler Ruby e The Portable Veblen – e Uma Pequena Vida, é claro, porque o hype sobre esse livro só vem crescedo desde o Man Booker Prize de 2015. E vocês, quais livros dessa lista te chamaram a atenção?

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