Resenha: Em Algum Lugar nas Estrelas, por Clare Vanderpool

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS é um romance intenso sobre a difícil arte de crescer em um mundo que nem sempre parece satisfeito com a nossa presença. Pelo menos é desse jeito que as coisas têm acontecido para Jack Baker. A Segunda Guerra Mundial estava no fim, mas ele não tinha motivos para comemorar. Sua mãe morreu e seu pai… bem, seu pai nunca demonstrou se preocupar muito com o filho. Jack é então levado para um internato no Maine (o mesmo estado onde vivem Stephen King e boa parte de seus personagens). O colégio militar, o oceano que ele nunca tinha visto, a indiferença dos outros alunos: tudo aquilo faz Jack se sentir pequeno. Até ele conhecer o enigmático Early Auden.

Early, um nome que poderia ser traduzido como precoce, é uma descrição muito adequada para um prodígio como ele, que decifra casas decimais do número Pi como se lesse uma odisseia. Mas, por trás de sua genialidade, há uma enorme dificuldade de se relacionar com o mundo e de lidar com seus sentimentos e com as pessoas ao seu redor.

Obsessivo, Early Auden tem regras específicas sobre que músicas deve ouvir em cada dia da semana: Louis Armstrong às segundas; Sinatra às quartas; Glenn Miller às sextas; Mozart aos domingos e Billie Holiday sempre que estiver chovendo. Seu comportamento é um dos muitos indícios da síndrome de Asperger, uma forma branda de autismo que só seria descoberta muito tempo depois da Segunda Guerra, e que inspirou personagens já clássicos como o Sr. Spock (Star Trek), o Dr. House e Sheldon Cooper (The Big Bang Theory).

Quando chegam as festas de fim de ano, a escola fica vazia. Todos os alunos voltam paracasa, para celebrar com suas famílias. Todos, menos Jack e Early. Os dois aproveitam a solidão involuntária e partem em uma jornada ao encontro do lendário Urso Apalache. Nessa grande aventura, vão encontrar piratas, seres fantásticos e até, quem sabe, uma maneira de trazer os mortos de volta ainda que talvez do que Jack mais precise seja aprender a deixá-los em paz.

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS é uma daquelas grandes histórias que permanecem com você por muito tempo, perfeita para ler entre amigos ou passar de pai para filho. Tudo que é real pode ser uma grande fantasia ou uma coincidência inevitável. Somos muito mais que um simples desejo do acaso. Nossos caminhos vão se cruzar no primeiro semestre de 2016 nesta obra premiada com o Printz Honow Award em 2016, indicada a outra dezena de prêmios e eleita o livro do ano em dezenas de listas preparadas pelos leitores.

Estou me sentindo A Chata Diferentona criticando livro que todo mundo gostou, mas fazer o que né. Sinceridade a gente vê por aqui. Essa “crítica” vai ser bem mais leve que a minha crítica à The Kiss of Decetion (na minha opinião nem fui tão dura assim com o livro, mas enfim), porque (quase) tudo que não gostei em Em Algum Lugar nas Estrelas é estritamente questão de gosto pessoal. Objetivamente, esse é um livro muito bom – entende-se porque tantas pessoas o adoram. Meus incômodos são com coisas que não gosto de ler sobre, não coisas que são objetivamente ruins.

Em Algum Lugar nas Estrelas conta a história de Jack, um garoto de 13 anos que perde a mãe e é mandado pelo pai para um colégio militar. O livro faz um bom trabalho em fazer o leitor simpatizar com Jack nesse começo do livro… e é aí que começa o problema. Porque quando Jack chega nessa escola militar, ele conhece o Early.

Early é um menino com autismo que mora na escola militar. A palavra autismo nunca é usada, e ele é apenas descrito como “um menino estranho” durante o livro – é uma frase usada até um pouco mais do que seria necessária, na minha opinião -, mas a autora deixa claro em suas notas finais que Early foi criado para ser uma criança com autismo. Segundo a autora, a palavra só não é usada porque, no período em que o livro é situado, as pessoas não seriam familiares com essa síndrome, muito menos nosso narrador de 13 anos. Early é diferente, e destemido, e brilhante. E Early é o verdadeiro personagem principal desse livro.

Em Algum Lugar nas Estrelas pode ter Jack como seu narrador, mas é à volta de Early que todo o enredo gira. Não só Early está em controle de toda aventura dos garotos, mas todos os momentos grandes do livro são focados nele: os momentos de ideias geniais, planos que os salvam de enrascadas, momentos emocionais, desenvolvimento de personagem… realmente esse é o livro de Early. E isso não é ruim! Um personagem como Early absolutamente merece ser a estrela de um livro, principalmente um livro voltado para o público infantil! Mas o problema é que assim, Jack – o suposto protagonista do livro, pelo menos de acordo com os primeiros capítulos -, se torna o protagonista mais inútil da história literária.

Jack toma algumas decisões erradas no começo do livro – o que é de se esperar, porque essa é, normalmente, a estrutura de livros assim: o protagonista começa não muito bem, para mais tarde ter seu grande momento. Mas esse grande momento nunca chegou para Jack. Ele continua só ou tomando decisões erradas, ou tomando nenhuma decisão e apenas servindo como o ponto de vista pelo qual observamos Early aparecer com mais uma reviravolta de gênio. Até mesmo o grande momento de desenvolvimento de Jack, seu clímax emocional final, o momento em que a lâmpada de luz em cima da sua cabeça finalmente acende…. acontece não porque ele chega à alguma conclusão por si próprio, mas sim por causa de Early.

Jack é literalmente um zero a esquerda nesse livro, e apesar de ser o narrador, nada mudaria na história se ele não existisse. Qual é o seu propósito? Servir como os olhos da pessoa “normal” (ugh) pelos quais observamos Early e descobrimos como ele é uma criança incrível “apesar de ser estranho” (UGH)? Esse livro não seria bem mais interessante se fosse contado do ponto de vista de Early, já que é ele o verdadeiro protagonista? Isso não significaria apagar a existência de Jack; seu personagem ainda poderia existir, como o novo garoto na escola que se torna amigo de Early, mas ele seria relegado ao personagem coadjuvante na história principal do livro – na história de Early – que ele verdadeiramente é. Ter Early como o narrador, entrar dentro de sua cabeça, resultaria em uma narrativa muito mais interessante para Em Algum Lugar nas Estrelas. Eu realmente acredito que se isso acontecesse, teria dado 4 – ou talvez até 5 – estrelas para o livro, ao invés das 3 estrelas que dei.

A questão do protagonista é realmente o que mais me irritou nesse livro, mas confesso que o modo como a história é estruturada também não me prendeu. Porém dessa vez posso confirmar que não há nada de errado com o livro, é apenas uma questão de gosto pessoal. Em Algum Lugar nas Estrelas é narrado em dois modos: há os capítulos em que Early narra a história de Pi, a personificação do numeral pi pelo qual ele é obcecado; e os capítulos da aventura real dos meninos, que aos poucos passa a criar fortes paralelos com a história de Pi. O livro passa por diversos momentos de “isso é realismo mágico ou não?” mas nunca realmente chega em um realismo mágico verdadeiro. Esse não é um tipo de história que eu goste muito – li outro livro com a mesma estrutura, Love in the Time of Global Warming, e a história não conseguiu me prender do mesmo jeito. Mas como eu disse, isso é apenas uma questão de gosto. Prefiro histórias que se joguem direto no realismo fantástico, mas isso não significa que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro ruim por não fazer isso.

Clare Vanderpool tem um estilo de escrita super gostoso, na medida certa entre poético para criar a atmosfera mágica do livro, e acessível para alcançar o público alvo infantil/infanto-juvenil. A história, apesar de não me apetecer, também é muito bem escrita. É realmente apenas essa questão do protagonista que me deixa triste toda vez que penso no quão sensacional seria esse livro se apenas seu narrador fosse o Early. Fpi uma grande oportunidade perdida. Pelo menos o trabalho gráfico da Darkside continua maravilhoso, com uma das melhoras capas que eles lançaram até agora.

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