Resenha + Discussão: A Maldição do Vencedor de Marie Rutkoski, e o tema da escravidão em romances

A Maldição do Vencedor

Kestrel quer ser dona do próprio destino. Alistar-se no Exército ou casar-se não fazem parte dos seus planos. Contrariando as vontades do pai – o poderoso general de Valória, reconhecido por liderar batalhas e conquistar outros povos –, a jovem insiste em sua rebeldia. Ironicamente, na busca pela própria liberdade, Kestrel acaba comprando um escravo em um leilão. O valor da compra chega a ser escandaloso, e mal sabe ela que esse ato impensado lhe custará muito mais do que moedas valorianas. O mistério em torno do escravo é hipnotizante. Os olhos de Arin escondem segredos profundos que, aos poucos, começam a emergir, mas há sempre algo que impede Kestrel de tocá-los. Dois povos inimigos, a guerra iminente e uma atração proibida… As origens que separam Kestrel de Arin são as mesmas que os obrigarão a lutarem juntos, mas por razões opostas. A maldição do vencedor é um verdadeiro triunfo lírico no universo das narrativas fantásticas. Com sua escrita poderosa, Marie Rutkoski constrói um épico de beleza indômita.

Quando A Maldição do Vencedor foi lançado no Brasil, eu imediatamente ouvi duas coisas sobre o livro: que era uma low fantasy (ou seja, livro de fantasia sem magia, dragões, etc), e que era uma fantasia com foco no romance. Também ouvi mais de uma comparação com The Kiss of Deception… e quem me acompanha já sabe que não gostei (mas não gostei MESMO) de KoD. Então já abri A Maldição do Vencedor com medo de odiar mais um livro hypado… felizmente, não foi o que aconteceu. Esse é um hype com razão de ser hype.

A Marie Rutkoski escreve muito bem, e isso é visível desde a primeira página do livro. Livros de fantasia com foco no romance normalmente deixam a construção de mundo e a “história” (ou seja, a narrativa desvinculada do romance) para o pano de fundo, mas Rutkoski consegue balancear perfeitamente os três pontos. A construção de mundo foi o suficiente para eu não só conseguir entender o mundo em que Kestrel e Arin vivem, mas também entender as diferenças entre suas culturas. O romance e a história andam de mãos dadas, usando uma mesma cena para desenvolver ambos. E mesmo se o leitor não gostar do romance, a história do livro apresenta um número suficiente de conflitos ligados à política e ao mundo de Valória para manter a atenção do leitor.

Usando mais uma vez The Kiss of Deception como comparação, A Maldição do Vencedor é similarmente dividida em “duas partes”: a primeira parte do livro é focada mais na construção do romance e nos problemas pessoais de Kestrel, e é na segunda parte que a verdadeira história da série é revelada. Porém, essa primeira metade nunca se torna massante ou irritante, pois mesmo sem uma “narrativa” fixa, a intriga política é interessante o suficiente para prender a atenção do leitor.

Apesar do livro ter capítulos do ponto de vista de ambos os personagens – Arin e Kestrel -, não há dúvida de que a verdadeira personagem principal é a Kestrel. Ela é uma protagonista incrível: altamente inteligente, nunca passiva, sempre criando planos e estratégias para lidar com sua situação e problemas; mas ao mesmo tempo, ela ainda mantém um certo nível de inocência em relação ao mundo e – principalmente – à Valória, e mesmo tentando estar no controle da situação, ela ainda acaba sendo manipulada por personagens com mais experiência nesse jogo político. Kestrel é uma personagem cativante desde o início, mas com espaço o suficiente para crescer e mudar durante a trilogia.

Quanto ao romance, admito que não saí do livro shippando Arin/Kestrel, mas também em nenhum momento me senti irritada com eles, o que já é uma vitória quando levarmos em conta o quão difícil eu sou com romances. Uma outra pessoa comentou que a relação entre Arin e Kestrel é mais um típico caso de insta-love, mas Rutkoski é uma escritora tão habilidosa que o leitor quase não percebe. Isso é a mais pura verdade, e uma ótima simplificação de Kestrel/Arin: não é lá um romance muito original, mas a autora é tão boa no que faz que ela consegue dar vida nova a um clichê já muito batido.

Agora você que leu tudo isso deve estar pensando “Nossa a Amanda realmente adorou esse livro, deve ter dado NO MÍNIMO quatro estrelas pra ele!” e realmente, cogitei dar uma nota bem alta para A Maldição do Vencedor – acho muito difícil dar cinco estrelas para o primeiro livro de uma série, mas esse é um quatro estrelas fácil. Porém, vocês verão que não foi isso que aconteceu. Decidi por três estrelas, apesar de ter gostado muito da leitura. Por que? Bom, por conta do romance. Não do romance por si só, pois achei que ele e os personagens, quando avaliados isoladamente, foram tratados muito bem – mas por conta de um aspecto dessa relação que a torna impossível de ser avaliada isoladamente: a escravidão.

Lendo a sinopse de A Maldição do Vencedor, o leitor já começa a leitura sabendo que Kestrel compra Arin em um leilão de escravos. O que eu esperava ao começar esse livro era ver alguma subversão na cena, ou em qualquer ponto desse romance, que mostrasse o quão problemático um romance nessas circunstâncias seria; mas para meu choque, tanto a cena de compra do escravo quanto o resto do romance não chegam nem a tocar no assunto, muito menos desenvolvê-lo.

“Mas Amanda”, você pode estar dizendo, “da metade do livro em diante Arin e Kestrel se vêem em lados diferentes em uma guerra! O romance deles se torna impossível! É essa a subversão/problematização que você está procurando”. E a isso eu digo: a batalha entre Arin e Kestrel, a grande fonte de angst e drama que irá seguir essa relação até o último livro, é por Arin e Kestrel serem de reinos inimigos – Valória e Herran -, não por Kestrel ter sido a senhora do Arin escravo. Os problemas que eles encontram em seu romance, a falta de confiança um no outro, as mentiras e traições e manipulações, todas acontecem porque Valória e Herran estão em guerra, e Kestrel e Arin se vêem no dilema entre serem leais às suas nações ou seguirem seus corações. Em nenhum momento ocorre alguma discussão sobre o poder que o senhor de escravos  possui, como um escravo é considerado uma propriedade e não tem o poder de consentir à qualquer relação com seu senhor, o quão desalinhada é a relação de poder nessa relação.

De fato, o livro faz todo o possível para tirar de Kestrel a responsabilidade de ser uma senhora de escravos. Ela nunca é culpada pelo tratamento sofrido pelos escravos: a culpa é sempre passada para seu pai, ou para o empregado da casa responsável por cuidar dos escravos, ou simplesmente a situação não é apresentada como negativa! Em certo momento, Arin diz para Kestrel que ele pode ser o “escravo preferido dela”, chamado para passar as noites em seu quarto, como tantos outros senhores fazem. Gente, o Arin está falando de ESTUPRO. Ele está falando de como vários escravos são usados sexualmente por seus senhores, sem poder resistir porque senão eles serão mortos e ninguém fará nada para ajudá-los. Mas esse é um momento romântico entre Arin e Kestrel!

A Kestrel nem sequer se mostra ser anti-escravidão durante sua narrativa. Há apenas duas frases no primeiro livro inteiro que INSINUAM que a Kestrel percebe como a escravidão é algo ruim, mas isso nunca é explicitado. É claro, ela nunca poderia falar abertamente que é anti-escravidão sem sofrer alguma retaliação de Valória; mas nem mesmo em sua narrativa, quando apenas o leitor pode saber dos pensamentos do personagem, ela diz que é contra a escravidão.

No momento de escrita dessa resenha, eu já terminei de ler The Winner’s Crime, continuação de A Maldição do Vencedor, e também já tenho spoilers sobre o último livro da série. Logo, eu sei como a Kestrel evoluirá durante os livros, e posso afirmar que sim, o objetivo da Marie Rutkoski foi pegar uma personagem totalmente cega sobre sua sociedade (inocente sobre Valória, lembra que eu disse isso lá no começo desse post?), e abrir os olhos dela até que ela se veja apoiando o reino inimigo. E é claro, essa é uma narrativa totalmente válida. Mas eu pergunto: é uma narrativa que continua válida quando o tema é escravidão? Principalmente com um romance no meio?

Meu problema com “romances escravistas” é bem simples: acho todos problemáticos, sem exceções. Livros que estudam um romance entre um senhor e escravo e mostram o quão problemático ele é não são romance escravistas; são livros sobre a escravidão. São livros que mostram os horrores que milhares de pessoas sofreram durante séculos, horrores reais, em nosso mundo, em nosso próprio país, que devem ser tratados com respeito. Mas livros que pegam essa dinâmica senhor/escravo e as tratam como algo romântico, eu não consigo ver como ela não seria problemática. Principalmente quando, como ocorre aqui, o protagonista é o senhor de escravos.

Mesmo assim, eu acabei lendo três livros com “romances escravistas” esse ano: a trilogia Captive Prince, Temporada dos Ossos, e agora A Maldição do Vencedor. A conclusão à que cheguei é a de que um romance  com temas de escravidão será sempre problemático, mas dependendo de como o livro desenvolverá o romance, ele pode ser entretido como uma boa relação – APENAS em ficção. Captive Prince e Temporada dos Ossos entram nessa categoria. A Maldição do Vencedor, porém, não. E a diferença entre eles é, basicamente, duas: 1) o personagem “dono de escravos” é caracterizado como contra escravidão, mesmo que secretamente. E 2) o romance entre os dois personagens é desenvolvida de forma muito MUITO lenta, partindo do ódio completo por parte do personagem escravizado, e só mudando para “amor” quando os dois personagens não se encontram mais na posição de senhor e escravo. Essas duas coisas acontecem em Captive Prince e Temporada dos Ossos. Nada disso acontece em A Maldição do Vencedor.

Meu problema com esse livro, logo, é que Marie Rutkoski, apesar de todo seu talento, não se dá ao trabalho de nem mesmo tornar seu romance um pouco mais “realista” (e coloquem muitas aspas nesse “realista”). Ela quis criar um romance onde os personagens se apaixonem rapidamente para que ela pudesse passar o resto da trilogia os jogando em lados diferentes e criando o drama de Arin e Kestrel serem forçados a se traíram, enganarem, etc. E essa seria uma construção de história totalmente aceitável! Se, na parte em que eles “se apaixonam rapidamente”, o tema de escravidão não estivesse jogado no meio.

O problema é que esse livro não é sobre escravidão: é sobre reinos inimigos em guerra. No fim das contas, a história de A Maldição do Vencedor poderia ser contata exatamente da mesma forma se excluíssemos o tema da escravidão de seu primeiro livro. E isso vale igualmente para Captive Prince e Temporada dos Ossos, apesar de ter gostado bem mais dessas séries, e até shippar os casais deles: nenhuma dessas histórias é sobre escravidão. Esse é um elemento colocado no primeiro livro, mas que nunca mais é citado ou desenvolvido no resto da série (Captive Prince até tenta dar algum desenvolvimento, mas mesmo assim é bem pouco). A escravidão na verdade é tratada como um plot device – algo que force a história a ir para a frente, algo que force o livro a ter um conflito, mas que nunca é tratado como uma tema em si só. E é assim que um capítulo tão horrível de nossa história mundial merece ser tratado?

É claro, não posso dar nenhuma resposta sobre esse tema porque no final do dia sou uma garota branca em um país com um histórico de escravidão ligado à etnia. Eu estou no campo dos privilegiados, que pode fazer essa resenha: falar que um livro tem conteúdo problemático por conta do tratamento da escravidão no romance, mas ainda assim dizer que, apesar disso, gostou do livro e vai continuar a ler a série. Eu posso me distanciar da situação, e olha-lá friamente, porque nunca fui afetada pela escravidão. Milhares de pessoas não podem dizer o mesmo. Então meu único objetivo ao abrir essa discussão é dizer a você, consumidor de qualquer tipo de mídia, seja ela livros, séries, filmes, ou jogos: olhe para essa mídia com olhos críticos, e tenha empatia o suficiente para perceber que, mesmo que algo não pareça problemático e ofensivo para você, ele pode ser ofensivo para outras pessoas, e elas não estão erradas em se sentirem ofendidas.

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2 comentários sobre “Resenha + Discussão: A Maldição do Vencedor de Marie Rutkoski, e o tema da escravidão em romances

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