Resenha: A Fúria e a Aurora (A Fúria e a Aurora #1), de Renée Ahdieh

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Personagem central da história, a jovem Sherazade se candidata ao posto de noiva de Khalid Ibn Al-Rashid, o rei de Khorasan, de 18 anos de idade, considerado um monstro pelos moradores da cidade por ele governada. Casando-se todos os dias com uma mulher diferente, o califa degola as eleitas a cada amanhecer. Depois de uma fila de garotas assassinadas no castelo, e inúmeras famílias desoladas, Sherazade perde uma de suas melhores amigas, Shiva, uma das vítimas fatais de Khalid. Em nome da forte amizade entre ambas, Sherazade planeja uma vingança para colocar fim às atrocidades do atual reinado.

Noite após noite, Sherazade seduz o rei, tecendo histórias que encantam e que garantem sua sobrevivência, embora saiba que cada aurora pode ser a sua última. De maneira inesperada, no entanto, passa a enxergar outras situações e realidades nas quais vive um rei com um coração atormentado. Apaixonada, a heroína da história entra em conflito ao encarar seu próprio arrebatamento como uma traição imperdoável à amiga.

Apesar de não ter perdido a coragem de fazer justiça, de tirar a vida de Khalid em honra às mulheres mortas, Sherazade empreende a missão de desvendar os segredos escondidos nos imensos corredores do palácio de mármore e pedra e em cenários mágicos em meio ao deserto.

Primeiro livro de uma duologia, A Fúria e a Aurora é uma adaptação da famosa história As Mil E Uma Noites, onde Sherazade escapa a morte e conquista o coração de um terrível rei por meio de fábulas. Esse livro me chamou a atenção por dois motivos: primeiro, é claro, a capa maravilhosa (que acabou sendo mudada na versão brasileira, fuén); e segundo, o cenário árabe. Livros da fantasia ambientados, ou baseados, na cultura árabe foram lançados aos montes recentemente; e eu absolutamente não estou reclamando dessa “tendência”, pois estou sempre à procura de fantasias que não são centradas na cultura europeia. A Fúria e a Aurora foi um dos primeiros livros com esse tema a serem lançados (foi lançado nos Estados Unidos em março de 2015), e por isso estava com muita curiosidade para lê-lo.

Porém, apesar da curiosidade, e de todas as resenhas positivas sobre o livro, ainda assim comecei a leitura com um certo receio; eu sabia que havia um triângulo amoroso no meio, e várias pessoas estavam dizendo que o romance era à la A Bela e a Fera, duas coisas que não me agradam nada… então entrei no livro já esperando odiar o romance (como sempre), mas para minha surpresa, 1) o triângulo amoroso é praticamente inexistente, e 2) esse não é um romance à la A Bela e a Fera, ma sim à la Hades e Persephones. E se tem uma coisa que eu AMO, são romances estilo Hades e Persephones.

Não conseguem ver a minha diferenciação entre A Bela e a Fera e Hades e Persephone? Não se preocupem que explico isso direitinho mais pra frente.

Mas primeiro, vamos ao livro em si. Normalmente começo citando os pontos positivos de um livro para depois passar para os defeitos, mas dessa vez farei o contrário; justamente porque A Fúria e a Aurora não foi um livro que gostei logo de cara.

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A primeira coisa que precisamos saber sobre esse livro é: A Fúria e a Aurora é um livro de romance. Parece óbvio – qualquer um que ler a sinopse do livro saberá que é sobre um romance, certo? – mas as vezes não percebemos o que um livro ser do “gênero romance” significa, principalmente quando é ambientado, ou contém elementos, de fantasia. Um livro ser “de romance ” significa que o ponto principal do livro será justamente a relação entre os dois personagens principais. O livro poderá conter outra narrativa dentro de si – como, nesse caso, há a narrativa de tensões políticas e rebeliões populares -, e poderá ser ambientado em um mundo fantástico – o mundo de A Fúria e a Aurora é descrito extremamente bem -, mas todos esses pontos serão secundários ao romance. É muito difícil gostar desses tipos de livro “pela história”, ou “pelo mundo criado”; ou você gosta do romance, ou você não gosta do livro.

Esse foi justamente meu problema no começo: não estava gostando do romance. Ou melhor, ele não me convenceu. O que, falando nisso, não foi a única coisa que não me convenceu nessa história, mas vamos lá. O desenvolvimento da relação entre Sherazade e Khalid não foi dos melhores – afinal, esse é um romance do tipo “ódio que vira amor”, mas o estágio de “ódio” é praticamente inexistente. Sherazade se vê “intrigada” e “fascinada” (as palavras-chaves dos romances que não querem ser taxados de instalove mas que na verdade ainda são instalove) por Khalid desde seu primeiro encontro, e não se passam nem 30% do livro até que nossa protagonista se “surpreenda” ao “perceber” que quer beijar o rei supostamente maléfico. Khalid, por sua vez, é um caso de instalove na cara mesmo, sem nem tentar disfarçar: ele simplesmente se vê “fascinado” (essa palavra de novo!) desde que a vê pela primeira vez, e nenhuma outra explicação é oferecida sobre o assunto. Ou seja, a execução desse “ódio que vira amor” fica meio falha quando o ódio na realidade não existe, né?

A Fúria e a Aurora abre sob um suposto: Sherazade está entrando nessa situação – se oferecendo para ser a próxima esposa de um califa que mata todas as suas esposas na manhã pós-núpcias – para realizar sua vingança pela morta da melhor amiga. Sherazade quer matar Khalid porque Khalid matou Shiva. Mas em nenhum momento a “vingança” de Sherazade é mostrada de forma convincente; ela perde diversas oportunidades de realizar seu plano, e fica óbvio que isso é apenas um artifício literário para fazer Sherazade entrar nesse casamento (e é claro que é um artifício literário; tudo em um livro é um artifício literário – o trabalho do autor é fazer esses artifícios parecerem convincentes, partes orgânicas da história, o que não ocorre aqui).

Para uma adaptação sobre As Mil E Uma Noites, são os elementos da fábula que são os pontos mais fracos do livro. Não apenas a premissa inicial de como e porque Sherazade se oferece para ser a próxima esposa, mas também o modo como ela escapa da morte a cada noite: pelas fábulas que conta ao califa. Esse é o ponto principal de As Mil E Uma Noites, e funciona em contexto de uma fábula/conto de fadas. Mas em uma história que tenta ser mais “realista”, essa situação nunca é explicada de forma que convença o leitor. Passa a sensação de que a “contagem de histórias” é algo que precisa acontecer porque é o que acontece na fábula original, não porque é um desenvolvimento natural à história de A Fúria e a Aurora.

A primeira parte de A Fúria e a Aurora é bastante lenta e previsível – há uma tentativa de “despistar” o leitor quando a autora introduz um triângulo amoroso na história, mas esse triângulo é tão fraco, e é tão óbvio que será Khalid o “escolhido”, que todos os parágrafos focados nos sentimentos entre Sherazade e Tariq (a terceira ponta do triângulo) parecem perda de tempo. Porém, tudo muda na segunda parte da história, após Sherazade admitir para si mesma que está apaixonada por Khalid.

Parte da razão da segunda parte ser melhor que a primeira é porque a história começar a tomar ritmo. Os primeiros 40% de A Fúria e a Aurora são só sobre Sherazade presa no palácio sem nada para fazer além de pensar nos seus problemas amorosos. Já os próximos 60% introduzem novos personagens, dramas políticos, conflitos entre os personagens já introduzidos no início; ao invés de só ficar pensando, Sherazade é obrigada a agir e tomar diversas decisões nessa segunda parte da história, o que torna a narrativa muito mais dinâmica e divertida.

O outro motivo da melhoria da história na segunda parte é o fato de, apesar do desenvolvimento da relação entre Sherazade e Khalid na primeira parte não convencer, a relação dos dois na segunda parte é incrível. É agora que entra o conceito de “A Bela e a Fera vs Hades e Persephone” que mencionei no começo da resenha: enquanto as duas histórias têm premissas parecidas (moça é “capturada” por um homem “monstruoso”), elas diferem em seu objetivo final. A Bela e a Fera termina quando Bela consegue salvar a Fera de sua monstruosidade; já Hades e Persephone termina quando Persephone se torna a rainha do reino de Hades. Enquanto na primeira história o foco está em como a personagem feminina consegue “salvar” o personagem masculino, “curá-lo”, transformar o monstro em homem; a segunda história foca no crescimento da personagem feminina de moça a rainha.

Quando disse que estava com medo de A Fúria e a Aurora ser uma história ao estilo A Bela e a Fera, estava dizendo que meu medo era que a função da personagem de Sherazade fosse a de “curar” seu par romântico, “salvá-lo de si mesmo”, “torná-lo um homem melhor”. Vemos romances desse tipo toda hora: romances onde o personagem masculino é um babaca com a personagem feminina, mas graças ao “poder do amor” da moça, ele “se torna uma pessoa melhor”. Sinceramente, acho histórias desse tipo insuportáveis; e diversas vezes durante a primeira parte de A Fúria e a Aurora temi que esse seria o rumo que o romance tomaria. Porém, não é o que acontece.

Após a transição do ódio para amor, seria fácil criar uma dinâmica onde Sherazade se colocasse na posição de responsável por salvar Khalid. Mas ao invés disso, a autora faz questão em não só mostrar a relação dos dois como totalmente igualitária e equilibrada, como também nunca coloca a responsabilidade de “salvar” Khalid sob Sherazade. Ela não é responsável por mudar o comportamento de Khalid; isso é tarefa dele. Ao decorrer do livro, a relação dos dois é mostrada como uma relação equilibrada, entre iguais: as opiniões e ideias de Sherazade são tão importantes quanto as de Khalid, e em nenhum momento algum dos dois é tratado como inferior na relação.

De um início tão improvável, Sherazade e Khalid acabaram se tornando um dos meus novos casais preferidos. Sua dinâmica não apenas é uma das minhas favoritas – ambos têm personalidades fortes e “temperamentos explosivos”, mas nenhum nunca supera o outro -, como também é feita ainda melhor pela escrita de Renée. Mesmo no início, quando ainda tinha minhas dúvidas sobre os dois, Renée consegue construir diálogos ótimos entre ambos. E após o romance ser estabelecido, o que não falta são cenas apaixonantes entre os dois. Até eu acabei me derretendo com as cenas românticas, e isso é muito difícil de acontecer comigo, heim?

Então sim, o romance se desenvolve em algo muito prazeroso de se ler. E grande parte do que torna o romance tão divertido – o equilíbrio entre os personagens, o vai-e-vem do diálogo -, é possível por conta de um personagem: Khalid. A construção desse personagem foi o que mais me surpreendeu em A Fúria e a Aurora. Sherazade é uma protagonista ótima, mas ela é o tipo de protagonista com que já estamos acostumados: impulsiva, língua afiada, firme no que acredita. Mas Khalid é algo que não vejo faz muito tempo: um interesse romântico, de um romance do tipo “ódio que vira romance”, que NÃO É UM COMPLETO BABACA.

Vocês sabem do que eu estou falando, certo? Podem até fingir que não, mas eu sei que sabem. Vocês sabem de todos esses romances onde os personagens começam se odiando, e o personagem masculino é sempre um tipo bem específico de personagem. Ele é o personagem “bad boy”, sempre com um sorriso de lado de rosto, convencido de que é a última bolacha do pacote (e a narrativa apoiando essa atitude ao mostrar diversas garotas morrendo de amores por ele e falando sobre como ele é lindo de morrer, normalmente na cena introdutória), sempre com uma piadinha pronta, de temperamento explosivo, descrito como tendo “atitude” e “um ar que comanda a atenção de todos”. Chegou ao ponto de que, se eu ver um personagem masculino sendo introduzido e a primeira coisa que descreverem for o sorriso de lado, eu imediatamente caio no sono. Gente, parem. Já deu.

Mas meu problema com esse arquétipo “bad boy” não é com sua descrição, mas sim as ações a que esses tipos de descrição levam. O personagem bad boy sempre tratará a personagem feminina mal, ou não a levará a sério, no começo da relação. O personagem bad boy sempre terá uma cena em que ele “perde a paciência” com a personagem feminina (muitas vezes uma parede onde a moça possa ser empurrada estará envolvida). Esse personagem sempre terá uma cena em que ele “age impulsivamente”, ou “emocionalmente”, por conta de ciúmes ou um desentendimento ou uma “traição” da personagem feminina. Sempre haverá uma cena em que ele usa força física para sobrepujar seu suposto par romântico – seja segurando os braços/pulsos da moça, empurrando ela na parede como já dito antes, ou até mesmo chegando a empurrar a moça no chão – e tudo isso será considerado “romântico”, ou “parte da relação”, ou “ah tá tudo bem, ele pediu desculpas depois :)”. E é claro, todo seu comportamento problemático será justificado por um passado misterioso e traumático.

Não citei nenhum nome de livro, série, ou personagem aqui, mas tenho certeza que vocês pensaram em pelo menos um personagem que se encaixa nessa descrição – é muito fácil pensar em muito mais de um personagem desse tipo.

Não sei vocês, mas estou 100% cansada desse “clichê romântico”, e estou aqui para dizer que um romance do tipo ódio-amor pode muito bem ser feito sem romantizar personagens que agem no limite do abuso. Khalid é conhecido como um monstro – Sherazade está mais do que certa em odiá-lo no início – e nem por isso ele se encaixa em qualquer um desses clichês de “personagem masculino ~atormentado pelo passado~ e portanto com um passe livre pra agir como um babaca”. Khalid, na realidade, vai contra todos esse clichês: ele é descrito como quieto. Como alguém que sabe escutar as pessoas. Alguém que sempre tenta ser racional, e não toma decisões impulsivas. Ele discute com Sherazade em diversos momentos, mas nunca tenta intimidá-la ou subjulgá-la fisicamente. Ele é discreto, nem lá tão bonito assim, e não é o homem mais alto da série; todas descrições que batem de frente com tudo que o personagem “bad boy” representa.

Na verdade, o “bad boy” da história não é Khalid, mas sim Tariq – sim, o terceiro ponto do triângulo amoroso, que ninguém realmente acha que tenha alguma chance com Sherazade. Todas as descrições sobre Tariq batem tim-tim por tim-tim com descrições de outros personagens “bad boys” (prestem atenção principalmente na sua cena de introdução, é quase hilária o quanto ela parece com cenas de introdução de “interesses românticos principais” de outros livros). E nenhum leitor irá achar que Tariq tem qualquer chance nesse triângulo amoroso, porque ele está sempre tentando controlar Sherazade, tomando decisões por ela, agindo impulsivamente e emocionalmente com a desculpa de que “quer salvá-la”. Khalid, por sua vez, deixa Sherazade tomar suas próprias decisões – trata ela como um ser humano que consegue pensar por si mesma, aparentemente algo raro – e por isso é considerado seu parceiro ideal.

Há uma certa cena no final do livro onde parece que todos os clichês convertem em uma única cena de “revelação” que culminará em Khalid finalmente agiindo como o típico “bad boy”; mas a cena é imediatamente subvertida, e subvertida de tal maneira que, ao invés de uma cena clichê problemática onde o personagem masculino intimida e age agressivamente com seu interesse romântico, ao invés disso ela se torna uma das cenas mais românticas e tristes do livro. Renée sabe muito bem o que está fazendo ao, não só construir o personagem de Khalid, mas contrastá-lo com o personagem de Tariq e mostrá-lo como superior. Renée está dizendo: viu gente, não é tão difícil assim escrever um interesse romântico que não é machistinha babaca disfarçado de “bad boy”, e que trata a personagem feminina decentemente.

Dito assim parece algo meio óbvio, mas quem lê bastante – e quem lê bastantr livros YA de romance -, sabe que infelizmente não é algo tão comum assim.

No fim do dia, A Fúria e a Aurora não é o melhor livro do mundo; sua história é relativamente previsível, e nem tudo que acontece convence ou faz sentido, e apesar de ambientar a história em uma cultura árabe com sucesso, não trata os aspectos originais à fábula As Mil E Uma Noites da melhor maneira. Mas esse livro sucede onde muitos falham ao construir um romance onde os dois personagens funcionam como um casal – onde o amor e respeito é mútuo, ao invés de ser “testado” a todo momento -, e ao criar um protagonista masculino que não me faz ter um aneurisma de raiva toda vez que trata a protagonista feminina horrivelmente. Acho que saí desse livro gostando mais do Khalid do que da Sherazade, e quem me conhece sabe que isso acontece uma vez a cada dez anos. É realmente algo especial, e o livro já merece meu amor só por esse ponto.

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Um comentário sobre “Resenha: A Fúria e a Aurora (A Fúria e a Aurora #1), de Renée Ahdieh

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