Hugo Awards e Clarke Awards: Os prêmios literários para ficção científica

Há alguns meses, fiz um post sobre o Bailey’s Women’s Prize – um prêmio britânico para livros escritos por mulheres -, e agora é a vez de duas premiações literárias focadas em um dos meus gêneros favoritos: ficção científica.

O Hugo Awards e Clarke Awards são prêmios bastante similares a primeira vista: além de terem o mesmo tema em comum – apesar do Hugo Awards também incluir livros de fantasia, o maior foco de ambos os prêmios está em ficção científica -, até suas datas são parecidas: ambos anunciaram seus vencedores no final de agosto. É claro, o Hugo é um prêmio americano e Clarke um prêmio britânico; mas levando em conta a facilidade e rapidez com que livros de um país são publicados no outro, a divisão América/Inglaterra acaba não sendo um grande diferenciador. Ao invés disso, o principal diferenciador entre esses dois prêmios está em um único ponto: seus métodos de julgamento. Porque enquanto o Clarke Award tem um júri de críticos que escolhem o vencedor – como a maioria dos prêmios literários -, Hugo Awards é um prêmio votado pelo público.

No meu post sobre o Bailey’s, comentei sobre como não estou interessada nos vencedores desses prêmios literários – afinal, escolher “o melhor livro do ano” é algo muito subjetivo; o que me interessa, e o que me faz gostar de acompanhar esses prêmios, é sua lista de livros nomeados. E é nesse ponto que se nota o impacto dos júris diferentes: para prêmios aparentemente iguais, as listas de nomeados para o Hugo 2016 e o Clarke 2016 não tiverem nenhum livro em comum.

É possível criar um debate sobre as diferentes formas de julgamento e seus respectivos nomeados, mas não estou interessada em mais uma discussão sobre público versus críticos literários. Estou interessada em descobrir livros novos que parecem ser interessantes, e nesse requisito nenhuma lista deixa à desejar.

HUGO AWARDS 2016

O Hugo Awards foi criado em 1953 nos Estados Unidos, e ganhou esse nome em homenagem a Hugo Gernsback, o fundador da primeira revista literária focada apenas em ficção científica. A lista de nomeados é geralmente lançada em maio, e o prêmio é anunciado anualmente em agosto, durante a Convenção Mundial de Ficção Científica (World Science Fiction Convention); todas as pessoas que vão à convenção podem votar.

O Hugo, semelhantemente ao prêmio brasileiro Jabuti, é dividido em diversas categorias: melhor livro, conto, novela, quadrinho, filme, seriado, revista, etc. Esse post será focado apenas na categoria de melhor livro, mas caso queira olhar a lista completa (Neil Gaiman e Brandon Sanderson estão entre os nomeados), assim como seus vencedores, clique aqui. Os nomeados para Melhor Livro de Ficção Científica/Fantasia de 2016 foram:

The Aeronaut’s Windlass (The Cinder Spires #1), de Jim Butcher: Primeiro livro da nova série de steampunk de Jim Butcher, The Aeronaut’s Windlass segue a história de Grimm, capitão de um navio mercantil que serve ao Spire Albion – uma espécie de casta, Spires são os grupos que controlam esse mundo-; quando seu navio é danificado em batalha, Grimm recebe uma proposta do líder da Spire Albion: ajude sua Spire em uma missão secreta, e o navio será totalmente restaurado. Grimm aceita, mas durante essa missão ele acabará descobrindo não apenas segredos sobre a guerra entre Spires, mas também uma ameaça ainda mais perigosa que a guerra.

Pelas resenhas que li, The Aeronaut’s Windlass é uma história rápida, com muita ação, e um sistema mágico interessante. Admito que a sinopse – e a descrição do personagem principal – não despertou meu interesse; mas para fãs de steampunk, essa é uma ótima opção de leitura.

Seveneves, de Neal Stephenson: Em um mundo devastado por calamides, a raça humana está com seus dias na Terra contados. Um grupo de cientistas entra em uma luta contra o tempo para descobrir como preservar a humanidade, dessa vez no espaço. Cinco mil anos depois, os descendentes desses terráqueos, agora divididos em sete raças diferentes, embarcam em outra jornada ambiciosa em busca de um novo lar: um planeta destruído e completamente transformado por desastres ocorridos cinco mil anos antes.

Seveneves, como pode ser visto pela sinopse, é um livro dividido em duas partes: a primeira metade é um thriller científico, onde um grupo pequeno tenta salvar a humanidade enquanto outros grupos tentam sabotar o projeto. Já a segunda parte é ficção científica pura, uma história totalmente especulativa sobre como a raça humana evoluiria no espaço daqui a cinco mil anos. Várias resenhas reclamaram dessa divisão – “parecem dois livros diferentes colados juntos” – mas é justamente isso que me deixou mais interessada. A única razão de ainda não ter começo Seveneves é devido ao seu tamanho; é o maior livro da lista, com 900 páginas.

Ancillary Mercy (Imperial Radch #3), de Ann Leckie: Ancillary Mercy é a conclusão da trilogia Imperial Radch, cujo primeiro livro, Ancillary Justice, ganhou o Hugo 2014 (assim como o Nebula 2014, Clarke Awards 2014, e diversos outros prêmios). Ancillary Justice conta a história de Breq, um soldado que antes era a Justice of Toren: uma nave colossal com uma inteligência artificial que ligava centenas de soldados  à serviço do Radch, o império que conquistou a galáxia. Porém, a nave é traída, e Breq se vê sozinha em um corpo humano e perdida em um planeta desolado. Breq então decide ir à procura de respostas, e vingança.

A trilogia Imperial Radch vem banhada de elogios – tanto de críticos, quanto de autores que respeito. Ela é elogiada, sobretudo, pela construção da protagonista: uma AI (ou IA, Inteligência Artificial), que é exilada de sua nave e obrigada a habitar um corpo humano. O tratamento desse ponto de vista abre espaço para discussões sobre gênero, individualidade, e humanidade. Leitores que gostam de sua ficção científica cheia de ação e batalhas no espaço talvez não gostem tanto dessa leitura; mas leitores que, como eu, são interessados na exploração da humanidade – e o que consiste, exatamente, a humanidade – provavelmente irão amar essa série. Pelo menos, eu sei que esse livro já será minha próxima leitura!

Uprooted, de Naomi Novik: O primeiro dos dois livros lidos dessa lista, e o que ficou em segundo lugar na votação, Uprooted é um livro totalmente diferente dos citados até agora: é um livro de fantasia, e que pode ser considerado YA (um YA mais maduro, talvez). Uprooted conta a história de uma vila que, graças ao Dragão, é protegida das assombrações da floresta que rodeia a vila; e em troca, a cada dez anos a vila oferece uma garota ao Dragão. Ao contrário das lendas, porém, os moradores da vila sabem que o Dragão não mata, e muito menos come, as garotas; o Dragão não é nem mesmo um dragão de verdade, mas sim um mago extremamente poderoso, e extremamente solitário. As garotas se tornam suas ajudantes, mais raramente suas aprendizes, e depois de dez anos estão livres para ir embora. Chegou a época de mais uma escolha da mais nova ajudante do Dragão, e a jovem Agniezka não está preocupada; ela sabe que não será a escolhida. É claro, ela está errada.

Uprooted é uma história de contos de fadas – não só porque é baseada em vários contos eslavos, mas a própria escrita é simplesmente mágica. O livro lembra, especialmente no começo, Castelo Animado (Howl’s Moving Castle), da Diana Wynne Jones: seu mago é tão hilariamente irritante quando o mago Howl, a relação entre ele e a protagonista é igualmente bem desenvolvida; mas mais do que, ambos os livros passam a sensação de se estar lendo um futuro clássico dos contos de fadas. Uprooted consegue lidar com magia, florestas amaldiçoadas, política, e intrigas de corte em um mesmo livro, onde outros autores talvez escolhessem dividi-lo em uma trilogia; e nem por isso a história parece apressada, mal desenvolvida, ou súbita demais. Esse livro é o pacote perfeito, com história, personagens, e escrita igualmente apaixonantes. E se ainda não estão convencidos, a própria Maggie Stiefvater recomenda o livro, dando-o cinco estrelas em seu goodreads.

Fifth Season (Broken Earth #1), de N. K. Jemisin: E finalmente, o vencedor do Hugo 2016. Como eu disse, o título de “vencedor” não importa muito para mim; mas dessa vez, devo admitir que não poderia estar mais feliz com o resultado. No limite entre os gêneros ficção científica e fantasia, Fifth Season é, com certeza, um dos melhores livros que li esse ano; e mais do que isso, um dos mais originais. Tudo nele é inovador: desde a escrita, que mistura os tradicionais capítulos narrados em terceira pessoa com capítulos narrados na rara segundo pessoa, e capítulos onde o narrador onisciente conversa diretamente com o leitor; passando pela construção de mundo, que é tão rica que em diversos momentos senti não como se estivesse lendo um livro, mas sim jogando um video game de mundo aberto, pois tudo, desde cultura e religião até geografia, é explorado; há representação de todos os tipos, desde raça, até gênero e sexualidade, interligadas à história de maneira surpreendentemente casual; e finalmente, a história em si também é diferente de tudo que já li: com “magia” focando não nos elementos, nos humanos, ou até nas estrelas, mas sim no solo.

Fifth Season conta a história de um mundo que periodicamente passa por desastres naturais, chamados de “A Quinta Estação” (Fifth Season), a Estação da Morte. A sociedade atual conseguiu o impossível, sobrevivendo a mais de uma Quinta Estação, graças ao governo que colocou sob seu controle os orogenes: pessoas com poderes de controlar pedras e solo. O livro segue a história de três mulheres: uma menina que acabou de descobrir que é uma orogene, e é levada para o centro de treinamento; uma mulher que terminou seu treinamento no centro, e recebe uma nova missão; e uma mãe, também orogene mas que mantém seus poderes em segredo, que chega em casa e descobre que seu filho foi morto por seu marido. Enquanto isso, uma nova Quinta Estação tem início, e essa será diferente de todas as outras; pois dessa vez capturou o interesse de seres misteriosos, vindos da pedra.

CLARKE AWARD 2016

O Arthur C. Clarke Award, chamado apenas de Clarke, é o prêmio de ficção científica mais prestigiado do Reino Unido. O prêmio foi fundado, graças à uma generosa doação de Arthur C. Clarke, em 1987, onde O Conto da Aia de Margaret Atwood foi o primeiro vencedor. O vencedor é escolhido de uma lista de nomeados (chamada shortlist) e julgado por um painel de críticos, especialistas e escritores do gênero. A shortlist de 2016 foi composta pelos seguintes livros:

Europe at Midnight (The Fractured Europe Sequence #2), de Dave Hutchinson: A série Fractured Europe conta a história de uma Europa que no futuro destrói a União Europeia e começa a se fraturar em pedaços cada vez menores. O primeiro livro conta a história de um homem que é introduzido a uma organização de espionagem continental; o segundo livro foca em outro protagonista, também espião, que descobre a existência de outro universo. Como pode-se perceber, enquanto o primeiro livro é mais político, o segundo já começa a entrar mais no gênero de ficção científica, ao focar em uma guerra com outro universo. Mesmo assim, a série continua sendo fortemente política, e tratando de assuntos bastante relevantes; afinal, no momento a destruição da União Europeia está mais para uma previsão do futuro do que um universo alternativo.

Way Down Dark (The Australia Trilogy #1), de James P. Smythe: Way Down Dark conta a história de uma espaçonave, chamada de Australia, que sai da Terra em busca de um novo lar; mas nunca o encontra. Os humanos da nave Australia estão agora divididos em diversos grupos, criando uma sociedade dominada pela violência e desordem. Chan, uma garota de dezessete anos, tenta viver na Australia sem chamar a atenção de ninguém, e portanto, permanecer viva. Mas tudo muda quando ela descobre um meio de levar o Australia de volta para a Terra.

Way Down Dark é o livro mais YA da lista – protagonista adolescente, missão impossível que apenas ela conseguirá realizar, é até dividido em uma trilogia. Mas o livro promete uma distopia bem construída, um mundo bem construído, e diversas personagens femininas.

The Book of Phoenix, de Nnedi Okorafor: The Book of Phoenix é a prequel de seu livro mais famoso, Who Fears Death, mas pode ser lido como um livro único. Conta a história de uma mulher modificada geneticamente que vive em um laboratório em Nova Iorque, e não conhece nada além de sua torre. Phoenix vive normalmente, junto com outras pessoas modificadas geneticamente, sem razão para temer sua prisão; até que o laboratório mata seu namorado, e Phoenix vai atrás de respostas.

Nnedi é conhecida por inserir discussões sobre raça e racismo em todos os seus livros, mas The Book of Phoenix é seu livro mais político – e mais incendiário – até agora. Ela mostra toda a história horrível que os Estados Unidos tem com negros, e sua história de racismo, escravidão, e colonialismo. Mais do que isso, Nnedi não tem medo de se mostrar extremamente furiosa, e machucada, com essa história; sua protagonista, Phoenix, está sendo considerada por muitos uma das protagonistas mais furiosas – e portanto aterrorizantes – do ano.

Arcadia, de Iain Pears: Arcadia é um livro quase impossível de ser sumarizado sem revelar spoilers. Segue três histórias: a de Henry Lytten, um espião aposentado na Inglaterra de 1962, que está tentando escrever seu livro; Jay, um garoto que vive em um universo campestre utópico, protagonista do livro de Henry Lytten – até que acontecimentos começam a sair de seu controle; e Angela, uma cientista em um futuro distópico, que descobre como viajar no tempo, e é forçada a fugir das autoridades.

Arcadia é muitas coisas; um resenhista descreve o livro como “romance shakespeariano de thriller de espiões de ficção científica de viagem ao tempo”. Cada linha do tempo poderia ser classificada em um gênero diferente: a história de Jay é uma fantasia, é claro; Angela está em uma história de distopia; e Henry Lytten é o protagonista de um livro com toques de espionagem, sim, mas é principalmente uma história sobre histórias: Henry diz que foi amigo de Tolkien e C. S. Lewis, e está escrevendo um livro fortemente influenciado por esses autores, abrindo espaço para diversos comentários e discussões sobre o gênero. Esse é, com certeza, um livro extremamente denso; não só por ser longo, mas também pelo tamanho de informação que pode ser encontrado ao ser lido com atenção. Talvez seja por isso que ainda não consegui terminá-lo: é uma leitura lenta, e tão inteligente, que as vezes o resultado disso é deixar você se sentindo um leitor burro. 😛

The Long Way to a Small Angry Planet (Wayfarers #1), de Becky Chambers: Para outro livro relativamente longo (por volta de 520 páginas), terminei-o em menos de dois dias; algo de nota quando o livro não tem quase nenhuma ação, ou até mesmo uma “história” propriamente dita. The Long Way to a Small Angry Planet conta a história de um futuro distante onde os humanos estão integrados em uma aliança intergalática, e interagir com aliens é algo normal. Nossa protagonista é uma humana que quer deixar sua colônia para trás, então vira parte da tripulação de uma nave que constrói “buracos de minhoca”, os buracos interdimensionais que permitem naves atravessarem o universo em apenas alguns segundos.

The Long Way é um sucesso tanto de crítica quanto comercial, e a razão é óbvia: o mundo criado é tão vívido que parece real. E não me refiro só aos planetas e naves, mas sim às várias espécies de aliens que conhecemos durante a história. Todos têm aparência, linguagem, hábitos, e cultura diferentes; e em nenhum momento a construção desses aliens obedece parâmetros “humanos”: nada de aliens sexy que são totalmente azuis mas ainda tem seios, nada de sistema binário de gênero, sistema heterocêntrico de sexualidade, ou até mesmo sistema monogâmico de formação de família. Os alienígenas são realmente alienígenas aos olhos humanos; e mais importante ainda, os personagens humanos precisam aprender a respeitar e não ofender as cultura alienígenas. Esse é um livro não só extremamente divertido, com personagens vibrantes e simpáticos, como também é um verdadeiro estudo de construção de ficção científica. A construção de outras culturas é tão rica que, se essas culturas realmente existissem, com certeza encarariam esse livro como um estudo sociológico.

Children of Time, de Adrian Tchaikovsky: O vencedor do Clarke Award 2016 é tão único quanto o vencedor do Hugo, mas enquanto Fifth Season foca na história de indivíduos, Children of Time foca na história de sociedades. Nele, humanos estão tentando criar uma nova forma de vida em outros planetas, mas são sabotados antes que o projeto esteja completo; milhares de anos depois, uma nave espacial contento o último grupo da raça humana vaga pelo universo em busca de um novo lar, e se depara com os restos do projeto de seus ancestrais: encontram um planeta perfeitamente construído para a humanidade, mas povoado por uma nova raça tão inteligente quanto os humanos; uma raça evoluída das aranhas.

Children of Time é um livro de ficção científica especulativa, que volta seu olhar não só para o que ocorrerá com os humanos, mas também para a pergunta “como uma nova raça evoluiria até ser tão inteligente quanto nós?”. O livro traça milênios de evolução, mostrando as aranhas desde seu surgimento nesse novo planeta, até a criação e desenvolvimento de sua sociedade única e totalmente diferente da sociedade humana. Os capítulos são intercalados entre a sociedade aracnídea e a sociedade humana, e são construídas tanto diferenças contrastantes entre as duas raças, quanto paralelos preocupantes. Children of Time é um livro extremamente preocupado com o peso da antiguidade sobre nós; como não só o que restou da sociedade humana é afetada pelas conquistas e batalhas de seus ancestrais, mas também como a própria sociedade aracnídea é afetada por seus “criadores”; e como, inevitavelmente, entrarão em choque com os humanos, que não são mais seus ancestrais criadores, mas sim um nova sociedade.

 

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Um comentário sobre “Hugo Awards e Clarke Awards: Os prêmios literários para ficção científica

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