Resenha: o que não existe mais, de Krishna Monteiro

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O que não existe mais é um relato sobre memória e desajuste, solidão e renascimento. Neste livro de contos, Krishna Monteiro explora esses temas sob vários ângulos. O de um filho perseguido nos corredores de sua casa pela lembrança viva o pai; o de um pacto celebrado pelo escritor João Guimarães Rosa numa encruzilhada; o de um galo de briga que, ao combater na arena, recorda toda a sua existência; o de um gato, narrando os últimos momentos de sua dona, sem compreendê-los; o de um velho soldado que tenta sem sucesso exorcizar a guerra; o de uma mulher que diante da degradação e do envelhecimento vê no ato de contar histórias a fonte mesma de criação e manutenção da vida.

o que não existe mais é um livro pequeno: de 100 páginas, com sete contos. Assim, logo que me vi com o livro em mãos, imediatamente pensei “ótimo, essa vai ser uma leitura rápida, posso sentar e terminar o livro inteiro de uma só vez”. Fui muito inocente, mas pelo menos a ilusão foi quebrada logo, já na primeira página: essa não é uma coleção de contos para ser devorada rapidamente, como uma leitura leve de domingo.  Esses são contos que demandam a atenção, e até mesmo uma certa insistência por parte do leitor, para serem decifrados.

Como a sinopse diz, o que não existe mais é um livro sobre a memória e solidão. Mais especificamente, sobre tentar capturar a memória, em vão. Todos os personagens dos contos perseguem o passado, tentam revivê-lo, conectá-lo a seu presente, sem sucesso. “o que não existe mais” não poderia ser um título melhor para esses contos, que são todos sobre tentar agarrar-se a algo que não mais existe, ou nunca existiu.

Os setes contos são sobre: um filho que é perseguido pelas memórias sobre seu pai morto, um encontro do protagonista com Guimarães Rosa em uma encruzilhada, um galo de briga que intercala seu presente no ringe com seu passado, um gato acompanhando os últimos momentos de sua dona, a evolução da relação entre um neto e seu avô, uma pequena reflexão onde o autor conversa diretamente com o leitor, e, finalmente, uma senhora contadora de histórias que persegue seu último conto. Todas essas histórias contém protagonistas à procura de algo, em um desespero quase frenético. É um desespero pela conexão – seja a conexão com o outro, ou com si mesmo -, que nunca será concretizada.

Esse tema da busca se reflete na escrita, tão insólita quanto as memórias que os personagens procuram. Em certos momentos o estilo de escrita me passou um sentimento quase alucinógeno. A transição entre presente e passado era as vezes tão sutil, ou confusa, que não sabia se o que estava lendo era uma memória ou se estava acontecendo “de verdade”, o que provavelmente era a intensão: na busca frenética pela memória, e na tentativa de conectar o que é “memória” ao o que é “real”, ambos acabam se fundindo, e os personagens não terminam com memórias “verdadeiras”, mas sim com uma realidade cade vez mais irreal.

Essa não é uma coleção de contos que pode ser lida casualmente, sem atenção. O autor obscurece, camufla, desconversa, passa rápido por tópicos que são obviamente importantes para os personagens; mas nada é feito sem propósito, e a escrita, talvez difícil no começo, é essencial para a atmosfera dos contos.

Dos sete, meus contos favoritos foram (para a surpresa de absolutamente ninguém) o sobre Guimarães Rosa, e o contado pelo ponto de vista do gato. O que eu menos gostei acabou sendo o conto sobre o neto e seu avô, o que me surpreendeu, porque achei que foi o conto mais direto do livro, estilisticamente falando; mas apesar de um pouco confusa no começo, a escrita realmente me conquistou (por algum motivo quero chamar o estilo de escrita do autor de impressionista, mas não tenho conhecimento artístico – ou de teoria literária – o suficiente para expandir essa comparação, além de só comentar que foi o sentimento com o qual o livro me deixou, haha).

o que não existe mais é uma coleção de contos pequena em número de páginas, mas gigante em ideias. Sua nominação para o Jabuti 2016 é mais do que merecida, e é uma ótima escolha para leitores que, como eu, estão sempre à procura de novas descobertas literárias nacionais.

*Esse livro foi obtido gratuitamente em troca de uma resenha honesta. Todas as opiniões expressas são minhas.

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