Resenha: Ruby, de Cynthia Bond

Um romance inesquecível sobre a força de uma mulher para sobreviver à violência

Uma narrativa de paixão e coragem, Ruby transporta o leitor até meados do século XX, por ruas poeirentas de uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos, enquanto aborda temas atemporais que ultrapassam fronteiras geográficas.
A jovem e bela Ruby Bell passou por sofrimentos inimagináveis durante a infância e a adolescência, e, assim que surge uma oportunidade, decide fugir de sua sufocante cidade natal no Texas para a vibrante Nova York dos anos 1950. No entanto, não consegue escapar dos fantasmas do passado.
Mais de uma década depois, quando um telegrama urgente a faz voltar para casa, ela é forçada a reviver fatos perturbadores e a reencontrar os personagens que definiram os primeiros anos de sua vida, esforçando-se para manter a sanidade em meio a lembranças sombrias.
Com uma prosa refinada, Cynthia Bond afirma seu lugar entre as vozes mais impactantes da ficção literária contemporânea e constrói uma história transformadora — ao mesmo tempo um retrato cruel do que o ser humano é capaz e uma demonstração da força transcendente do amor. Uma obra marcante sobre a luta feminina, finalista do Baileys Women’s Prize.

Ruby é um dos livros que coloquei na minha lista de 15 livros para 2017 – e imaginem minha felicidade quando algum tempo depois a Intrínseca anunciou que iria lançar esse livro no Brasil! Aproveitei e engatei a leitura no mês de seu lançamento – abril – e, leitura concluída, vim aqui dizer minhas impressões.

O livro atingiu a todas as minhas expectativas? Em certas partes sim, mas em outras partes… não posso negar que deixou um pouquinho a desejar.

Ruby é uma história extremamente bem escrita sobre todos os traumas e horrores que uma mulher negra vivendo na época da segregação dos Estados Unidos viveu. Como a própria sinopse diz, é ao mesmo tempo um retrato cruel do ser humano (extremamente cruel – aconselho cuidado a qualquer pessoa que tenha gatilho relacionado a estupro e cenas de abuso explícitas), e uma ode à força feminina. Esse é um livro que toca em muitos assuntos – racismo, feminismo, religião, sexualidade – e com diversas linhas narrativas; até magia entra no meio, porque parte da narrativa lida com o espírito demoníaco que está assombrando Ruby, ou seja, esse não é apenas um livro histórico sobre problemas sociais, mas também tem seu toque de fantástico.

A própria personagem da Ruby é extremamente bem desenvolvida. Cynthia Bond trabalhou durante muito tempo em um centro de apoio a adolescentes lgbt, e vários dos jovens com quem trabalhou eram vítimas de abuso; a autora afirma que as várias histórias que ouviu desses adolescentes serviram como inspiração para as cenas de abuso do livro. Apesar de ser um tema terrível, portanto, ele é extremamente bem embasado, e tratado de forma muito realista.

Outros pontos da história, porém, não foram tão bem desenvolvidos, e muitas vezes acabaram indo de encontro à mensagem que Ruby quer passar; a história quer passar certa mensagem com seus temas, mas as justificativas de certos personagens passam uma mensagem totalmente diferente. E, agora uma reclamação totalmente pessoal, as personagens pelas quais me interessei foram justamente as personagens secundárias, que receberam muito pouco desenvolvimento. Eu gostaria que a história focasse mais na Maggie, por exemplo, do que no Ephram – o outro personagem principal do livro, pelo qual eu não consegui me interessar por mais que eu tentasse.

Ruby é um livro recheado de temas e mensagens, que lida com assuntos polêmicos de maneira polêmica. É um livro que terá uma variedade de interpretações diferentes, dependendo da bagagem de cada leitor. E ás vezes isso é mais importante do que ter gostado ou não do livro: ele dar ao leitor algo a ser pensado. E Ruby fez justamente isso, por isso ainda recomendo a leitura, mesmo que não tenha sido um livro que tenha me conquistado.