Resenha: Peter Pan, de J. M. Barrie

Peter Pan (1)

Peter Pan quer ser eternamente menino. Na história criada pelo escritor escocês J.M.Barrie e publicada pela primeira vez no início do século XX, Peter e a fada Sininho levam seus amigos Wendy, João e Miguel para conhecer o lugar em que vivem, a Terra do Nunca, onde o tempo não passa. Uma sucessão de aventuras espera a turma. Eles vão se deparar com um navio pirata e ter que enfrentar o temível Capitão Gancho, conhecer a aldeia dos índios e os meninos perdidos. Uma história cheia de emoções e mensagens.

Peter Pan, obra mais famosa do escritor escocês J. M. Barrie, teve um início humilde: originalmente, Peter era apenas um personagem secundário que aparecia em um capítulo de seu outro livro, The Little White Bird (1902). Criado como personagem secundário, sua popularidade foi tamanha que os capítulos de The Little White Bird onde Peter aparece foram republicados, sozinhos, com o título de Peter Pan in Kensington Gardens. Mas o fenômeno Peter não para por aí; a crescente popularidade do personagem incentivou Barrie a criar a peça Peter e Wendy (ou Peter Pan; or the boy who wouldn’t grow up) em 1904, e, finalmente, transformar a peça em um livro em 1911 – no livro que conhecemos hoje como Peter Pan.

A força de Peter Pan como personagem, e seu impacto nos leitores, se torna clara não só por sua história de origem, mas também por todas as adaptações que surgiram após a publicação do livro; animação da Disney, inúmeros filmes, seriados, e até mesmo peças adaptando a peça original. Diversos criadores publicaram suas próprias versões, interpretações, e recriações desse personagem. Seu impacto na cultura popular é duradouro e inegável.

Peter Pan é uma história marcante, que até hoje impacta os leitores. Mesmo na literatura atual, seu estilo de narração, atmosfera surrealista, e personagens inusitados causa surpresa – ou até mesmo estranhamento – de quem decide se aventurar por esse clássico infantil. A sensação de estranhamento foi muito provavelmente intencional do autor; a história abre justamente com uma narrativa surreal, incluindo a “explicação” de como a família Darling “contratou” um cachorro para ser a babá de suas crianças, ou como a Senhora Darling “vasculha” as mentes de seus filhos toda noite quando estão dormindo, para “apagar os pensamentos ruins, e manter apenas os pensamentos bons”. É nesse momento que a qualidade dupla da narrativa começa a se tornar clara: para as crianças, essa será uma história divertida e com acontecimentos “nonsense” típicos do gênero… mas parar os adultos, a história se torna uma narrativa metafórica, que esconde significado em seu simbolismo.

E entre as metáforas e simbolismos, o próprio personagem Peter Pan é a maior metáfora de todas. Peter não é um menino; ele é um Menino. Ele é, no livro, o arquétipo da infância eterna, “pura”, sem nenhuma interferência adulta; e a Terra do Nunca é seu parquinho de jogos eterno. É por meio de Peter que J. M. Barrie dá suas opiniões sobre a infância, e sobre aqueles que escolhem se agarrar a esse período de suas vidas ao invés de aceitar o processo de crescimento e maturação pelo qual todos passamos. Viver na infância eterna pode ser um paraíso em certos aspectos; mas também é aterrorizante por outros. Quando leitores “reclamam” de o quão violento e aterrorizante o personagem Peter é, é porque essa foi uma escolha consciente do autor.

Qualquer leitor adulto que pegue Peter Pan para ler depois de se familiarizar com a adaptação da Disney com certeza ficará chocado com o quão diferente os Peters dessas duas versões são. Enquanto o Peter da Disney é apenas um menino mágico e adorável, o verdadeiro Peter não só mata pessoas, como também tem problemas de memória, decide ajudar ou não seus companheiros baseado apenas em seu próprio humor, e comanda os Garotos Perdidos com a severidade de um ditador – em certo momento, o narrador nos diz implicitamente que Peter mata os garotos perdidos que se “recusam” a ser crianças eternamente. Ele é alguém, basicamente, sem nenhuma empatia.

O que seria Peter, então? O “verdadeiro vilão” da história? O antagonista que engana os leitores – e enganou a Disney – em acreditarem que é um herói? Os leitores decepcionados com o Peter original certamente estão decepcionados porque tiveram a imagem inocente e heróica do personagem criado pela Disney quebrada. Mas é esse o ponto: são os leitores – e a Disney – que inserem uma moralidade, seja ela negativa ou positiva, no personagem. Ou ele é um herói ou um vilão. Ou é bom ou é malvado. Ou é apropriado para crianças, ou é algo que deveria ser recategorizado como apenas para adultos. Mas essas são as visões externas; o próprio Peter não pode ser categorizado em nenhum desses pólos, porque ele não atua dentro de uma moralidade. Ele, na verdade, é um personagem que desconhece o conceito de moralidade.

Não é só de defeitos que Peter é feito: ele é um garoto inteligente, criativo, e sim, mágico; ele cuida dos garotos perdidos, e defende a Terra do Nunca; e ele acredita que todos são tão sinceros e honestos quanto ele – Capitão Gancho trapaceia e engana Peter em diversos momentos, e em todos Peter age chocado como se fosse a primeira vez – sua fé na bondade dos outros é eterna. Mas isso não torna Peter um personagem heróico; apenas o torna uma criança, segundo a visão de J. M. Barrie.

Em certo ponto da história, o narrador diz para os leitores que crianças são “sem coração”; que não pensam nos outros, não pensam em toda a dor que causam a seus pais, só pensam em si mesmas. O narrador pode estar partindo de um ponto de vista amargo contra as crianças, mas o que ele diz é objetivamente correto. As crianças são pequenos seres ainda em desenvolvimento, logo seus cérebros ainda não estão 100% prontos; não sabem muito sobre conceitos como empatia, moralidade, e certo e errado. Logo Peter, como o arquétipo da Infância, também não sabe.

Dizer que crianças não sabem sobre empatia e moralidade pode parecer um ataque à elas em um primeiro momento (eu prometo que não tenha nada contra crianças!), mas pare um pouco para pensar sobre sua própria infância, e nos tipos de brincadeiras daquela época. Quem aqui nunca matou suas Barbies de maneiras horrorosas simplesmente porque era divertido? Ou “matou” os coleguinhas em brincadeiras do tipo policial e ladrão, ou os diversos jogos que logo se tornavam violentos sem a supervisão e interferência de adultos. Não é a mesma coisa que ocorre na Terra do Nunca? A ilha é um eterno jogo de policial e ladrão – ou no caso, pirata e garoto do nunca -, um eterno jogo de faz de conta, onde não há nenhuma autoridade maior que a de Peter. Em diversos momentos do livro, é dito que Peter “brinca de comer” e se sente satisfeito, e o resto das crianças precisam seguir a decisão de “jantar de brincadeira” mesmo quando o mesmo não funciona para elas. Peter é uma criatura que funciona puramente no mundo do faz de conta – no mundo puramente infantil.

Peter Pan

É por isso que Wendy logo se torna a pessoa mais importante da ilha, e sua autoridade rivaliza a de Peter – porque ela é uma criança consciente de que é uma criança, e de que precisa crescer. Ela é a única criança no livro que não esquece de sua moralidade, ou de que precisará voltar para o mundo real mais cedo ou mais tarde. Seus irmãos, e todos os outros garotos, logo se vêem convencidos pelo mundo de faz de conta de Peter, e esquecem suas famílias; apenas Wendy não se esquece de seus verdadeiros pais. E a diferença entre ela e os outros garotos é a de que Wendy é a única criança que aceita que irá crescer um dia.

É Wendy, portanto, que é nossa protagonista, e a personagem com quem devemos simpatizar e tomar como exemplo. Peter pode ser interpretado como um “cautionary tale“, ou seja, um personagem que é para ser tomado como preventivo – não faça o que ele faz (se recusar a crescer) ou você se tornará igual a ele (uma criança eterna em espírito, sem memórias e sem noção de certo e errado) -; ou pode ser interpretado como a Infância personificada, algo que nos seduz por um instante mas que mais cedo ou mais tarde deverá ser deixado para trás, como Wendy faz. A conclusão de J. M. Barrie, com a história de Peter Pan, é de que a infância é uma época mágica, mas que crescer e deixar esse tempo para trás não é algo a ser temido. No epílogo, Wendy cresce e não perde seu senso de magia – o que tanto sentimos falta da infância – mas ganha qualidades a mais como adulta; ou seja, é possível manter os pontos positivos da infância na vida adulta, ao mesmo tempo que se aprecia as qualidades ganhas com esse ato de crescer.

Peter Pan é um livro extremamente rico em simbolismo e significado, e eu poderia falar muito mais sobre diversos outros pontos do livro. Por exemplo, sobre a importância de Wendy ser a “mãe” dos garotos perdidos, e o significado de Peter, a Infância personificada, desprezar qualquer autoridade adulta mas ao mesmo tempo ansear por uma mãe a ponto de “raptar” Wendy. O tema de “mãe” no geral é algo muito interessante, pois ao mesmo tempo que Wendy e a Senhora Darling são posicionadas como as personagens mais inteligentes e fortes da história, elas são consideradas tal justamente por seu “papel feminino de mãe”; ou seja, a feminilidade é exaltada, mas apenas em seu conceito tradicional – J. M. Barrie poderia, portante, ser considerado avançado e liberal, ou até mesmo “feminista”, para seu tempo, mas certamente não é feminista o suficiente para os dias de hoje. Há ainda o tema da sexualidade a ser explorado, pois o fato de que Wendy está crescendo e portanto passando pelo processo do despertar da sexualidade é algo mencionado diversas vezes durante a história.

Seria impossível discorrer sobre todos os temas apresentados nessa pequena e divertida história infantil em um único texto; mas o fato é que Peter Pan é um livro que consegue ao mesmo tempo entreter os que não procuram por “significados escondidos”, quanto apresentar montanhas de simbolismo para aqueles que procuram. De Peter, a Wendy, até Capitão Gancho; todos são personagens que dão espaço para inúmeras discussões e interpretações. Talvez seja justamente por isso que Peter Pan é um livro que perdurou por décadas, ainda fonte de diversas adaptações e reimaginações: sempre há algo novo a se discutir sobre a história e seus personagens.

Peter Pan (2)

Resenha: A Cor Púrpura, de Alice Walker

a cor purpura

Vencedor do Prêmio Pulitzer em 1983 e inspiração para a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg, o romance A cor púrpura retrata a dura vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Pobre e praticamente analfabeta, Celie foi abusada, física e psicologicamente, desde a infância. Um universo delicado, no entanto, é construído a partir das cartas que Celie escreve e das experiências de amizade e amor, sobretudo com a inesquecível Shug Avery. Apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder, em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais.

Eu abri A Cor Púrpura realmente sem saber o que esperar. Não tinha lido a sinopse, não tinha lido nenhuma resenha; só sabia que era um clássico americano escrito por uma mulher negra, e por isso o peguei para ler. De um começo de leitura sem muitas expectativas, saí com uma leitura que com certeza entrará nos Melhores de 2017.

Entrar totalmente cega nesse livro foi, na maior parte, uma ótima decisão de minha parte; mas algo que tornou o choque do primeiro capítulo ainda maior. O choque veio por dois lados: pelo conteúdo, e pela forma narrativa. A Cor Púrpura é um livro que trata de temas pesados como abuso e estupro de forma bastante crua, e na primeira página do primeiro capítulo isso já se torna claro – talvez claro demais para alguns leitores. Se você tem algum gatilho relacionado a esses temas, portanto, sugiro cuidado.

O maior choque, porém, não foi o tema, mas sim a narrativa. A Cor Púrpura é um livro epistolar, ou seja, é uma história contada por meio de cartas escritas pela protagonista. Celia, porém, nunca completou sua educação formal, e o estilo de escrita espelha isso. A narrativa está cheia de “erros”, e é baseado na linguagem oral, ou seja, Celia escreve “como fala”. Em um primeiro momento, isso torna a história um tanto incompreensível, difícil de ser acompanhada – principalmente se está fazendo a leitura em inglês. Porém, não demora muito para se acostumar com essa narrativa única, e a partir desse ponto ela se torna extremamente rápida e fluida. Esse é um livro que pode facilmente ser lido em um ou dois dias; algo que normalmente não é associado com os clássicos.

O estilo de escrita único também é um dos métodos de caracterização de Celia no livro: como alguém que é desconsiderada por todos como uma mulher “simples”, “sem educação”, e até mesmo “burra”, mas que esconde uma vida interior muito rica. Celia é um dos grande pontos fortes do livro; com um caráter simpático e carismático o suficiente para carregar um livro sobre sua vida, é a protagonista ideal para esse tipo. A Cor Púrpura não tem uma linha narrativa per se; ao invés de ter algum “propósito” ou “objetivo final”, a narrativa é apenas um acompanhamento da vida de Celia. Mas o livro nunca se torna maçante ou lento por conta dessa falta de linha narrativa; pelo contrário, essa é uma leitura extremamente cativante e que prende sua atenção desde a primeira página. E isso se deve em muito pela personagem carismática de Celia, e pela habilidade de Alice Walker em fazer o leitor se preocupar e torcer pela protagonista.

O estilo de narrativa contado por cartas, porém, traz seus problemas, que seria a única crítica que tenho a fazer: o ritmo da narrativa sofre em alguns pontos devido ao formato de cartas não datadas. A Cor Púrpura acompanha décadas e décadas de história, mas é difícil descobrir onde a narrativa avança no tempo; em várias partes do livro eu tive que voltar e reler capítulos porque apenas páginas depois eu conseguia perceber que a história havia mudado de tempo.

Mas essa pequena reclamação é, no final das contas, ignorável em vista de todos os outros pontos positivos da história. E esses pontos não são difíceis de identificar, pois A Cor Púrpura é um livro extremamente denso. Não importa em que grupo demográfico você se encontre, esse livro terá algum tema relevante a você. Esse livro discute sobre questões raciais e de gênero, obviamente, mas ele também traz a tona: questões de classe, sexualidade, sororidade, masculinidade e sua relação com o abuso, religião, negros nos Estados Unidos versus negros na África… e ainda toca, em plano de fundo, na relação entre afro-americanos e nativo-americanos.

Quando, ao ler o primeiro capítulo, descobri sobre o que a história se tratava, eu logo a coloquei em uma caixa: “ah, então esse livro vai falar sobre mulheres negras, entendi”. Mas a cada capítulo outro assunto era levantado, e tratada com incrível sensibilidade – a conversa entre Celie e Shug sobre religião, por exemplo, é simplesmente incrível. A Cor Púrpura nunca se deixa ser “categorizado” ou “encaixotado”; não é um livro “que trata sobre tema x”. O tema de A Cor Púrpura é a vida; e todas as dificuldades que irão aparecer, e todos os obstáculos que precisam ser superados, mas ultimamente, sobre a felicidade que pode, sim, ser encontrada mesmo nas piores situações.

Vídeo: Personagens Femininas da Literatura #mulheresparaler

Esse vídeo demorou pra sair, porque precisei encontrar um jeito de falar tudo o que eu queria sem que o vídeo ficasse com 30 minutos de duração, mas finalmente saiu! Personagens Femininas na literatura é um assunto complicado, que envolve não só os escritores, mas também os leitores. Nesse vídeo, vim falar sobre porque (na minha opinião) muitas das personagens femininas na literatura ainda são tão estereotipadas.