Vídeo: QUEERBAITING – O que é? Como funciona?

Primeiro: Sim, eu sei que no meio do vídeo começo a falar o nome do Alvo e Escórpio errado. Como eles têm nomes diferentes na versão inglesa e brasileira, eu acabo misturando os dois hahaha.

Já faz algum tempo que estava pensando em fazer esse vídeo, então aqui está. Quero fazer mais vídeos de discussão daqui para frente; filmar foi um saco mas o produto final até que ficou interessante!

HORÁRIOS

01:07 O que é Queerbaiting?

07:43 Seu ship é queerbaiting?

10:24 Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

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Resenha: Sense8

Você, que não aguenta seriados lentos, com plots confusos e misteriosos: serei sincera, talvez esse post (e essa série) não seja para você. Mas você, que ama seriados baseados na exploração íntima de personagens e que trabalha com conceitos novos: já assistiu Sense8?

Resenha Sense8

Estava esperando por essa série desde que os primeiros trailers começaram a aparecer. O fato de ser feita pelos irmãos Wachowski (Trilogia Matrix, Jupiter Ascending) já despertou meu interesse: seus filmes, mesmo quando não dão certo, sempre apresentam ideias diferentes e fantasiosas, justamente o que procuro. Quando li a premissa de Sense8, foi impossível não se apaixonar: oito estranhos espalhados pelo mundo que, de repente, desenvolvem um link mental entre si? Mesmo que a série se tornasse horrível, teria valido a pena só por lançar essa ideia no mundo. Para minha sorte, não fui decepcionada.

Quando sentar para assistir o primeiro episódio, é bom se preparar para uma introdução lenta de todos os oito personagens, e uma introdução mais lenta ainda dos vilões e da “história em si”; o seriado termina os três episódios (de uma hora cada) praticamente sem revelar o “objetivo principal” da história, os vilões, ou até mesmo o caminho que os protagonistas devem tomar. Ao invés disso, Sense8 se preocupa em mostrar à audiência cada detalhe da vida interior do personagem. A “lentidão” do desenvolvimento da história dá espaço para uma vasta exploração das motivações, desejos, e passado de cada um dos oito protagonistas.

Os irmãos Wachowski disseram que essa primeira temporada é o “prólogo” de Sense8: uma apresentação do mundo e seus personagens. De fato, é apenas no final da primeira temporada que o verdadeiro “mistério” da série – certos remédios da empresa farmacêutica – começa a ser revelado. Similarmente, os personagens passam a maior parte do tempo sozinhos, se encontrando apenas em certos momentos, até se juntarem no último episódio. Faz sentido para a construção da história, mas ainda assim é um fato triste, pois os melhores momentos da série são quando dois ou mais “sensates” – como as pessoas com os links mentais são chamadas – se juntam.

O ponto principal da série é justamente esse: Sense8 não é uma história sobre conspirações governamentais e corrupção farmacêutica, mas sim uma história sobre como oito estranhos se conhecem, ajudam um ao outro, e se tornam uma família. Tal ajuda não é apenas ajuda em uma luta, ou hackear sites da polícia, mas sim ajuda emocional, oferecendo conselhos, ou apenas uma companhia em momentos difíceis. Certas pessoas criticaram a presença da Riley no seriado – “ela é apenas uma DJ, não tem nenhuma ‘habilidade’ ou ‘talento’ útil” – mas o que não perceberam é que a habilidade de Riley de oferecer conforto aos outros sensates é tão útil quanto, por exemplo, o talento em artes marciais de Sun.

Outro ponto positivo da série é como os irmãos Wachowski levam seus personagens em direções inesperadas. Antes do lançamento da série, a Netflix lançou uma série de character trailers introduzindo cada um dos oito sensates. Segundo tais trailers, cada personagem parece oferecer uma trajetória interessante, mas previsível: Lito, o ator mexicano que é secretamente gay e precisa lidar com uma atriz obcecada com ele. Sun, a empresária coreana que trabalha na empresa da família, mas secretamente participa de lutas. E é claro, Will, o policial de chicago, que será o foco central do seriado. Olhando para esses resumos, parece óbvio o percurso que cada personagem irá trilhar durante a temporada. E os trailers não mentem: todos os personagens são exatamente o que os trailers mostram…. durante o primeiro episódio. Os irmãos Wachowski partem dessas premissas óbvias e as levam a desenvolvimentos inesperados. Isso se torna especialmente verdadeiro nas histórias de Lito e Sun. O jeito com que Sense8 lidou com a tal “atriz obcecada”  foi uma surpresa mais do que agradável, e Sun acabou se tornando a personagem com a história mais interessante, e pela qual menos posso esperar para ver sua continuação na segunda temporada.

Com tantos personagens carismáticos e histórias interessantes, talvez a maior crítica de Sense8 seja, ironicamente, a falta de tempo. O foco durante a maior parte da primeira temporada é recai sob os personagens localizados nos Estados Unidos e Inglaterra; Sun, Lito, Kala, e Capheus, por não estarem geograficamente próximos do epicentro da história, se tornam levemente deslocados e subutilizados. Isso é algo que espero que a segunda temporada corrija; Sun, Kala, e Capheus estão todos ligados à indústria farmacêutica, que parece que será o próximo foco do seriado. É claro, se Sense8 for renovado: ainda não há nenhuma confirmação de uma segunda temporada, portanto deixem a Netflix saber que todos vocês estão interessados em uma continuação!

Sense8 é uma ótima opção para todos aqueles interessados em premissas de fantasia ou ficção científica, mas com um foco inequivocamente humano. Apenas uma dica: não assistam sem fones de ouvido enquanto na presença da família, pois as cenas de sexo são frequentes: espere uma grande surpresa nesse aspecto durante o sexto episódio!

Resenha: Mad Max: Fury Road

Filmes de ação, que são 90% explosões e perseguições de carro – projetados para entreter uma platéia durante uma hora e meia/duas horas de cinema,- podem também carregar mensagens filosóficas? Podem também oferecer um comentário social que é considerado corajoso e até radical para Hollywood? Filmes de ação, que são 90% explosões e perseguições de carro; podem, ao mesmo tempo, conter um núcleo emotivo que toca profundamente sua platéia em um nível humano?

Mad Max: Fury Road, dirigido por George Miller, prova que sim.

Mad Max Fury Road

Mad Max é uma franquia australiana de filmes de ação pós-apocalípticos criada por George Miller (e Byron Kennedy, que morreu em 1983). O primeiro filme é intitulado Mad Max, lançado em 1979, e conta a história do policial Max Rockatansky (Mel Gibson) em um mundo onde a sociedade como conhecemos é destruída. Seu sucesso foi tão grande que ainda rendeu duas sequências, Mad Max 2 (1981) e Mad Max Beyond Thunderdome (1985). A então trilogia marcou todo um gênero de filmes de ação e apocalipse: o arquétipo do herói traumatizado e silencioso que vaga sozinho se torna dominante no gênero graças à franquia. Ela é definida pelas seguintes características: perseguições de carro, mortes e vingança, muita violência, e um protagonista silencioso (se Mad Max tiver cinco falas por filme, é muito) que, ao vagar pelo deserto pós-apocalíptico, acaba se juntando a um grupo de pessoas com certos problemas, ajuda-as, e enfim volta a vagar sozinho.

E é assim que chegamos a Mad Max: Fury Road, lançado em 2015: 30 anos após Thunderdome. Dessa vez, Max Rockatansky (Tom Hardy) acaba se juntando à Imperator Furiosa (Charlize Theron) em sua missão de salvar as Cinco Esposas de sua escravidão pelo tirano Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne).

Fury Road segue a linha de seus predecessores: o filme é basicamente uma longa perseguição de carro, com inúmeras explosões, basicamente zero diálogo, e tensão do início ao fim. E mesmo assim, em meio a esses temas já tão batidos, Fury Road consegue se elevar entre os diversos cansativos e tediosos filmes de ação graças a uma cinematografia inovadora, um grupo de personagens fortes, e uma execução exímia dos ditos temas batidos, inovando-os ao juntá-los com um tema inesperado para um filme de ação: os perigos da hiper masculinidade em nossa sociedade.

A maioria das pessoas que usam a internet regularmente provavelmente ouviram sobre o burburinho que antecedeu o lançamento de Fury Road; foi basicamente impossível não ouvir sobre os chamados MRAs (“Male Rights Activists”, Ativistas dos Direitos dos Homens) que clamavam por um boicote a Fury Road, pois o filme se tratava de uma “enganação” para os “homens alvo público de filmes de ação”, que esperavam assistir duas horas de explosões e se depararam com mulheres gritando “Não somos objetos!” durante todo o filme. É claro, a fúria dos MRAs não funcionou como planejavam, e na verdade eles contribuíram para que o público de Fury Road aumentasse.

Isso resultou em várias discussões sobre se, de fato, Fury Road seria um filme feminista. É minha opinião que nenhum filme/livro/seriado/etc é “feminista”, pois nenhuma ficção poderia incluir todos os ângulos existentes no feminismo; o que é possível é analisar filmes/livros/seriados/etc por um ângulo feminista, e tirar conclusões positivas ou negativas de tal análise. Fury Road é exemplar segundo esse critério. Certas críticas chamam atenção para o fato de que Fury Road não pode ser considerado um incrível ganho feminista quando trata de um tema tão óbvio e simples quanto “mulheres não são objetos”. Mas visto o ultraje dos MRAs, diria que é bastante considerável.

Pois bem, e como tal ângulo feminista é concretizado em Fury Road? A primeira camada dessa análise é óbvia: todas as personagens femininas que populam o mundo de Mad Max: Fury Road.

As Cinco Esposas

Esse é um filme em que o objetivo principal é libertar um grupo de mulheres mantidas como escravas sexuais do vilão. Desse sumário, você logo supõem o tratamento que essas garotas receberão em um filme de ação: apenas objetos a serem salvos, e uma delas se tornando a recompensa do herói no final do filme. Objetos que têm o papel de ser “colírio para os olhos” do espectador, filmadas para que o dito espectador possa “apreciar” seus vários dotes. Basicamente, cinco cópias de Megan Fox em Transformers.

Fury Road brinca com essas suposições da audiência durante a cena de introdução das Cinco Esposas. Max, correndo pelo deserto desesperado por qualquer meio de transporte e preparado para inúmeros obstáculos, se esgueira pelo caminhão de Furiosa e se prepara para identificar seus inimigos…. e ao invés disso se depara com cinco moças imaculadas – algo raro para o mundo pós-apocalíptico de Mad Max -, lavando a areia de seus corpos. Essa primeira cena é emoldurada como a descoberta de um oásis em meio ao deserto, e duvido que tenha sido só minha sessão de cinema que tenha sido povoada por risinhos e assobios de homens. É a partir dessa cena de poucos segundos que todas as suposições do espectador são formadas, e é a partir dessa cena que George Miller começa a derrubá-las.

Imediatamente após a câmera passa pelas Esposas, ela foca em dois pontos: a mangueira de água, e o cinto de castidade de uma das esposas sendo quebrado por outra. Apenas dois close-ups, que passam as informações para a audiência: essa moças são fugitivas de um tipo específico de cativeiro, e Max não está deslumbrado com elas, mas sim com a água – mercadoria já estabelecida pelo filme como escassa e extremamente valorizada, o suficiente para iniciar guerras. Max se importa com a água e o caminhão para sua fuga, não com a aparência das Esposas. E a câmera confirma o ponto de vista de Max: em nenhum momento, tanto nessa cena quanto em todo o resto do filme, a câmera se demora pelo corpo das Esposas. Em nenhum momento a câmera as sexualiza. Elas são identificadas como vítimas de abuso e estupro, mas em nenhum momento somos mostrados o abuso e estupro; a câmera não tira proveito das cenas de sofrimento para sexualizá-las, como muitos filmes e séries fazem (oi Game of Thrones). As Esposas simplesmente dizem “estamos cansadas de ser abusadas” e em nenhum momento a câmera as contradiz.

Uma suposição derrubada, George Miller logo parte para outra: a das Esposas serem donzelas indefesas, que não contribuem em nada para sua fuga. Ao ver a mangueira de água, Max imediatamente as ameça com sua arma, e as Esposas, previsivelmente, agem assustadas e obedientes. Também previsivelmente, se dá início a uma cena de luta entre Max e Furiosa. E é nesse ponto que George Miller novamente inova: as Esposas não permanecem ao fundo da cena, apenas olhando e, no máximo, soltando alguns gritos assustados. Elas ajudam Furiosa, puxando a corrente de Max, tentando atrapalhá-lo, jogando armas para Furiosa. Elas não são peritas em combate como Furiosa, mas ainda assim tomam decisões que auxiliam sua fuga. Cada uma das Esposas domina algo diferente, que se tornará indispensável para o desenvolvimento da história. Elas não são apenas bagagem que Furiosa e Max carregam, mas sim seres humanos em controle de seu ambiente.

E cada uma das Esposas é um ser humano individualizado. Levando em conta o quase inexistente diálogo e constantes cenas de ação do filme, seria de se esperar que não haja espaço para o desenvolvimento de dois protagonistas, muito menos de todo o elenco. Porém, é exatamente isso que Fury Road consegue. Ao final do filme, a audiência conhece cada uma das Esposas, suas qualidades e defeitos. Elas não são substituíveis entre si. O papel de Capable não pode ser substituído pelo papel de Splendid na história, que por sua vez não pode ser substituída por Toast. Fury Road não deixa nenhuma brecha para que as Esposas sejam interpretadas apenas como donzelas genéricas.

Outro jeito de expor as personalidades de cada Esposa é por seu vestuário. No começo do filme, todas vestem as roupas do cativeiro, pedaços de pano que não deixam quase nada para a imaginação. Mas ao longo de sua jornada, cada Esposa vai ser apossando de trajes diferentes: Capable se cobre com uma manta colorida, enquanto Toast se apropria de um pedaço de tecido branco para cobrir os cabelos. Seu mantra de “Não somos objetos” é afirmado de diversas formas ao longo do filme: pelo respeito da câmera, pelas decisões de como se vestir, pela total agência que cada uma das Esposas tem sobre suas ações.

Com toda essa atenção e trabalho colocados nas personagens das Esposas, mesmo assim George Miller estava consciente de que tudo daria errado se escolhesse o herói errado para elas:

Inicialmente, não havia uma agenda feminista. A coisa que as (personagens) procuravam era não ser um objeto, mas as cinco esposas precisavam de um guerreiro. Mas o guerreiro não poderia ser um homem pegando cinco esposas de outro homem. Essa é uma história completamente diferente. Então tudo nasceu daí.

Tom Hardy Apologized to George Miller for ‘Mad Max: Fury Road’ (tradução livre minha)

E é assim que surge Furiosa.

mad max fury road furiosa

Quando se diz que vingança e fúria são os temas de Fury Road, se espera que esses sejam os sentimentos de Max; Max, que se diz insano, que faria de tudo para sobreviver. Porém, ao assistir o filme, logo descobre-se que Max Insano na verdade é Max Apático. Seu único objetivo de sobreviver se desenvolve em desinteresse sobre seu mundo externo. Ao invés disso, a vingança e fúria centrais para a história de Fury Road são de Furiosa.

Furiosa é introduzida como uma “Imperator”, uma operadora dos caminhões de Immortan Joe, posição de grande poder na distopia de Mad Max. De cabeça raspada e expressão taciturna, ela dirige seu caminhão pelo deserto, aparentando obedecer as ordens de Joe, até que subitamente muda de estrada e revela sua traição. Assim se dá o começo da mega perseguição do filme.

A história de vida dessa personagem não é explicitamente contada à platéia. Mas assim como ocorre com o passado de Max, durante o filme são dadas diversas dicas para que seu passado se torne claro. Em uma sociedade que trata as mulheres como objetos, Furiosa consegue alcançar uma posição de poder tão grande que se torna parte do círculo de confiança de Immortan Joe. Para chegar nessa posição, Furiosa teve que não apenas se tornar um ser agênero (compare a aparência dela – cabelo raspado, roupas longas – com a aparência das Esposas), como também teve que apoiar e promover um sistema que destrói pessoas como ela. Sua jornada, porém, não é em nenhum momento altruísta, apenas visando a ajudar as Esposas. Furiosa procura a redenção de seu passado, e a construção de um novo mundo.

Furiosa é uma heroína inesperada em um gênero dominado por heróis masculinos: uma mulher, fruto da fúria feminina, que luta por mulheres.

mad max fury road capable e nux

Em uma dinâmica já estabelecida nos filmes anteriores, Max é o narrador do filme, mas o núcleo de desenvolvimento do filme são os personagens a quem se junta. Como visto até agora, é o arco emotivo de Furiosa que recebe o foco em Fury Road. Mas isso não significa que Max não tenha seu próprio arco; e que, ele também, não tenha algo de inovador para apresentar a Hollywood. Pois Max também é uma das vítimas da opressão que Furiosa e as Esposas lutam contra.

O mantra principal de Fury Road é “Não somos objetos”. A sociedade que Immortan Joe constrói é mostrada como a criadora dessa objetificação. É uma sociedade que valoriza guerra, violência, e morte. Immortan Joe cria um culto baseado nesses valores para que seus soldados, os War Boys, o obedeçam. Ele convence esses garotos de que o único jeito de chegar à Valhala é por uma morte gloriosa em combate, um pedaço de cultura obviamente emprestado dos Vikings, que é cultuado com um fervor religioso pelos War Boys. Fury Road vai ainda mais além, e deixa subentendido que é essa cultura de Immortan Joe que causou o estado atual desse mundo pós-apocalíptico.

we're not to blame

“Não é nossa culpa.” / “Então quem matou o mundo?” por magneto.pt

Posicionadas diretamente opostas aos valores de Immortan Joe estão Furiosa e as Cinco Esposas, que buscam a criação de uma nova sociedade simbolizada pelo grupo de mulheres que encontram no deserto, as Vuvalini. Elas pregam a paz: guerreiam por necessidade, mas buscam um mundo em que a violência não seja mais necessária. A diferença entre os dois grupos é explicitada pelas mercadorias raras que valorizam: enquanto Immortan Joe saqueia vilas para obter mais gasolina e armas, as Vuvalini viajam pelo deserto procurando um solo fértil o suficiente para que possam plantar diversas espécies de plantas que se tornaram extintas.

Furiosa e as Cinco Esposas apoiam desde o começo do filme os ideais das Vuvalini. Mas o filme não simplesmente posiciona homens versus mulheres, e conclui sua mensagem nesse ponto; ele vai além e mostra como os ideais que Immortan Joe cultua – a hiper masculinidade – também prejudicam os homens. Os dois personagens masculinos considerados heróis, ao invés de vilões, de Fury Road, tratam justamente desse fato: Max, obviamente, e Nux.

O arco emocional de Nux é o mais simples dos dois, e o mais óbvio, logo mais rápido de ser entendido pela audiência. Nux é introduzido como um dos War Boys perseguindo Furiosa, desesperado – como todos os outros War Boys – pelo reconhecimento de Immortan Joe. Porém, ao experimentar pela primeira vez compaixão e compreensão da Esposa Capable, passa a ajudar Furiosa em sua missão. A rápida mudança de lado pode parecer forçada para alguns, mas segue o tema do filme: Nux foi tratado como um objeto durante toda sua vida, e ao receber reconhecimento humano pela primeira vez, passa por uma experiência tão reveladora que fará de tudo para não voltar a seu estado anterior.

A trajetória de Max, por sua vez, é mais sutil. Max começa Fury Road como um homem tão distorcido por seus traumas que praticamente não se considera mais humano. Ele em seguida é capturado e transformado em uma bolsa de sangue viva para os War Boys. Durante todo o primeiro arco do filme, Max não é tratado como um humano, e sim como um objeto; por consequência, ele internaliza essa mensagem e age apenas segundo seus instintos: desespero, pânico, sobrevivência às custas de tudo. Max não consegue falar no primeiro arco, pois não há ninguém que esteja disposto a ouvi-lo.

Até que Max se encontra com Furiosa, e, ao longo do filme, recupera sua voz. Furiosa trata Max como humano, o arranca da condição de objeto/animal. Ela confia em Max antes de Max se achar confiável, e o aceita dentro de seu grupo. Esse engajamento com o outro como humanos, não objetos, possibilita o começo da recuperação de Max. O clímax de sua jornada não é um momento de ação e violência, mas sim de compaixão, quando usa seu sangue para salvar Furiosa. Paradoxalmente, Fury Road é um filme de violência que condena tal violência em favor da compaixão e conexão humana.

Não se admira que MRAs tenham odiado tanto o filme: entraram no cinema esperando duas horas de violência e explosões escapistas, e se depararam com um ensaio sobre as consequências do patriarcado e da exaltação da hiper masculinidade. O verdadeiro poder de Mad Max: Fury Road não está em o filme defender o fato de que mulheres não são objetos; mas sim em defender o fato de que ninguém é objeto, e o feminismo é vantajoso tanto para homens quanto para mulheres.

Ainda há muitas outras coisas dignas de nota em Mad Max: Fury Road. Sua cinematografia é propositalmente composta de cores hiper saturadas, indo na contra-mão dos filmes de ação e pós-apocalípticos atuais, constituídos de paletas cinzentas e descoloridas. Todas as cenas de luta foram filmadas na vida real, sem basicamente nenhum CGI; novamente indo na contra-mão dos filmes de ação atuais. Apesar de lidar com temas tão pesados, Fury Road não tem medo de abraçar o exagerado e hilário; quem mais teria coragem de inserir um Warrior Boy que fornece a trilha sonora da batalha tocando uma guitarra que solta fogo? Há também muito ainda a se falar sobre como um filme com tão pouco diálogo consegue dar conta de desenvolver não apenas seus personagens, como também toda sua cultura e mundo.

mad max fury road final

Mad Max: Fury Road é o filme que verdadeiramente tem tudo: você está interessado em duas horas de explosões e perseguições de carro? Assista sem medo. E você, interessado em construções sociais de gênero, objetificação do ser humano, e o papel da mulher na sociedade? Assista sem medo, e depois volte para escrever seu próprio ensaio.